Durante o século XX, consolidou-se no Brasil aquilo que passou a ser chamado de grande imprensa brasileira. Em 1925, Irineu Marinho fundou o jornal O Globo, que mais tarde expandiria sua influência para o rádio e a televisão, transformando-se em um dos maiores conglomerados de comunicação do país. A Folha de S.Paulo surgiu em 1921 e se tornou uma das principais referências do jornalismo nacional. Já João Jorge Saad assumiu o comando da Rádio Bandeirantes em 1948, dando origem ao que viria a ser o Grupo Bandeirantes de Comunicação. Entre os grandes veículos, o mais antigo é o Estadão, fundado em 1875.
Em teoria, uma empresa de comunicação tem uma missão nobre: garantir o direito à informação, estimular o debate público e contribuir para a formação da cidadania. A imprensa deveria funcionar como uma ponte entre os fatos e a população, oferecendo contexto e informação qualificada para fortalecer a democracia.
Mas a história da grande imprensa brasileira mostra uma realidade diferente.
Ao longo de décadas, os principais grupos de comunicação do país atuaram muito mais como representantes dos interesses econômicos das elites do que como defensores dos interesses da sociedade. O discurso da imparcialidade sempre existiu, mas, na prática, os grandes veículos frequentemente escolheram lados quando seus interesses de classe estavam em jogo.
Os exemplos são inúmeros. A mídia apoiou o golpe militar de 1964, combateu direitos trabalhistas, atacou políticas de valorização do salário mínimo e se posicionou contra diversas medidas que ampliavam a proteção social dos trabalhadores brasileiros.
Não é necessário revisitar todos esses episódios para entender o presente.
Em 2026, o Grupo Bandeirantes resolveu rasgar de vez o véu da suposta neutralidade jornalística. Em editorial, a emissora assumiu posição contrária ao debate sobre o fim da escala 6x1 e alinhou-se à defesa da manutenção de uma jornada de trabalho que milhões de brasileiros consideram ultrapassada e desumana.
Para mim, essa postura não representa uma novidade. Ela apenas confirma uma tradição histórica. A Bandeirantes continua ecoando a visão de mundo das elites econômicas paulistas que construíram seu poder ao longo dos séculos. Vale lembrar que grande parte da riqueza que transformou São Paulo no principal centro econômico do país teve origem no ciclo do café, sustentado durante décadas pelo trabalho escravo e, posteriormente, por formas de exploração intensa da mão de obra. Quando uma empresa de comunicação se posiciona contra a redução da jornada de trabalho e em defesa de modelos que sacrificam a qualidade de vida dos trabalhadores, transmite a impressão de que ainda enxerga o mundo pelos olhos daqueles que sempre lucraram com jornadas longas, baixos custos trabalhistas e uma relação profundamente desigual entre capital e trabalho.
O tempo passou. O país mudou. Os trabalhadores conquistaram direitos. A sociedade tornou-se mais diversa e consciente de suas demandas. No entanto, parte da elite brasileira continua presa a uma lógica do século passado, enxergando qualquer avanço social como ameaça aos seus privilégios.
Os grandes meios de comunicação podem ter modernizado seus estúdios, suas tecnologias e suas plataformas digitais. Mas, quando o assunto é a defesa dos direitos dos trabalhadores, muitos deles ainda parecem falar em nome do velho Brasil das oligarquias, e não do Brasil real que acorda cedo todos os dias para produzir a riqueza do país.