Crise no PL: Michelle vs. filhos de Bolsonaro

Ataque de Michelle à aliança com Ciro provoca reação dos filhos de Bolsonaro, articulações por anistia e crise no comando do PL.

A crise mais intensa já vista no núcleo do bolsonarismo explodiu após Michelle Bolsonaro implodir a aliança do PL do Ceará com Ciro Gomes (PSDB). Durante evento que lançou Eduardo Girão (Novo) ao governo estadual, Michelle criticou publicamente o acordo articulado por André Fernandes (PL-CE) e autorizado diretamente por Jair Bolsonaro, afirmando que não aceitaria apoiar alguém que “compara o presidente Bolsonaro a ladrão de galinhas”.

A intervenção gerou indignação imediata na bancada bolsonarista e indignou os filhos do ex-presidente. O primeiro a reagir foi Flávio Bolsonaro, que classificou a atitude da madrasta como “autoritária” e “constrangedora”. Flávio afirmou que a fala de Michelle atropelou uma decisão previamente acertada por Jair Bolsonaro com Ciro em 29 de maio, quando, segundo ele, o próprio ex-presidente determinou o apoio ao ex-governador. Flávio também tentou deslegitimar o peso político de Michelle ao afirmar que ela “não é política” e precisa aprender que “a forma de tomar uma decisão é mais importante do que a decisão”.

Em seguida, Carlos e Eduardo Bolsonaro se uniram ao irmão, acusando Michelle de desrespeitar André Fernandes e de desviar-se da liderança de Jair Bolsonaro. Eduardo, dos EUA, escreveu que André “não poderia ser criticado por obedecer o líder”.

No PL, a fala de Michelle caiu como uma bomba. Dirigentes afirmaram que ela se tornou um fator de instabilidade por agir como “dona do bolsonarismo”, atropelando acordos do próprio marido. A direção nacional do partido convocou uma reunião emergencial para tentar conter seu protagonismo crescente. O encontro inclui Michelle, Valdemar Costa Neto, Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho e deve reforçar que decisões partidárias não passam somente por ela.

A rivalidade entre Michelle e Ciro é antiga: ele apoiou a ação no TSE que tornou Jair Bolsonaro inelegível. Para Michelle, apoiar Ciro seria legitimar quem “implantou a narrativa de genocida” e humilhou sua família. Em resposta aos enteados, ela publicou nota no Instagram na madrugada do dia 2, afirmando que respeita os filhos, mas pensa diferente e tem o direito de se posicionar. Também disse que, acima de política, é “mulher, mãe e esposa”, reivindicando seu peso junto ao eleitorado feminino da direita. Reforçou que não apoiará Ciro “ainda que essa fosse a vontade do Jair” e justificou agir de acordo com seus “valores e fé”.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro revelou, em entrevista, a existência de um acordo do PL com Hugo Motta e Davi Alcolumbre para pautar a anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, incluindo seu pai, preso e condenado a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe. Flávio acusou “fatores externos” de travar a pauta e se disse contra o PL da Dosimetria relatado por Paulinho da Força, que reduz penas, mas não concede perdão total. Nos bastidores, porém, bolsonaristas articulam aceitar a dosimetria para, no plenário, tentar reverter ao texto original de anistia ampla de Marcelo Crivella. Paulinho da Força acenou a aliados que a pena de Jair Bolsonaro poderia cair para 2 anos e 4 meses, o que permitiria soltura rápida.

O racha, antes político, tornou-se familiar. Michelle passou a madrugada postando críticas a Ciro e respondendo indiretamente aos filhos, acusando-os de machismo, e reafirmou que não aceitará alianças que traem seus valores, mesmo se Bolsonaro tiver autorizado. Ela insistiu que o povo bolsonarista no evento do Ceará compartilhou seu desconforto e comparou apoiar Ciro, rival histórico, a “trocar Stalin por Lenin”. Também acusou Ciro de humilhar sua família e afirmou que jamais negociará seus princípios.

A disputa agora é também sobre quem herdará o espólio político de Bolsonaro, preso, inelegível e com sua autoridade interna fragilizada. Michelle, que figura como principal liderança feminina da extrema direita e tem ganhado projeção nacional, mede forças com os enteados Flávio, Carlos e Eduardo, que tentam preservar o controle do movimento. Resta saber se a reunião convocada pelo PL conseguirá recompor o grupo ou se a crise se aprofundará, abrindo um racha definitivo no bolsonarismo.