Crise com Trump impulsiona recuperação de popularidade de Lula, aponta Genial/Quaest

Apoio cresce no Sudeste, entre a classe média e eleitores de centro

A mais recente pesquisa Genial/Quaest revela um movimento importante no cenário político brasileiro: após um ciclo de queda iniciado em julho de 2024, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a apresentar melhora em sua avaliação pública. O levantamento, divulgado nesta quarta-feira (16), mostra que a aprovação ao governo subiu de 40% para 43%, enquanto a desaprovação recuou de 57% para 53%. Com isso, o saldo negativo caiu de -17 para -10 pontos percentuais.

Segundo os analistas da Quaest, a recuperação está fortemente associada à crise diplomática e comercial desencadeada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, sob ordens do presidente Donald Trump. A retaliação americana, considerada por muitos como uma interferência política em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, acabou unindo a base lulista aos setores moderados da sociedade, ampliando a margem de apoio a Lula fora de seus redutos tradicionais.

Apoio cresce no Sudeste e entre a classe média
A mudança mais significativa ocorreu entre os eleitores de centro e da classe média, sobretudo no Sudeste. Nessa região, o saldo negativo caiu de -32 para -16 pontos, enquanto entre os eleitores com ensino superior completo, a rejeição despencou de -31 para -8 pontos. Já entre brasileiros que ganham entre dois e cinco salários mínimos — grupo diretamente beneficiado pela proposta de isenção do Imposto de Renda — a percepção do governo também melhorou de forma expressiva.

“O tarifaço contra o Brasil conseguiu unir a esquerda, os lulistas e os moderados (sem posicionamento); mas dividiu a direita e os bolsonaristas. Ou seja, empurrou o centro para o colo do Lula”, explicou Felipe Nunes, diretor da Quaest.

Embate com Trump favorece imagem de Lula
A pesquisa mostra que 66% da população tomou conhecimento da carta enviada por Trump a Lula, e 79% acreditam que as tarifas impostas pelos EUA terão impacto negativo na vida dos brasileiros. Além disso, 72% consideram que Trump errou ao justificar as taxas como resposta a uma suposta perseguição a Bolsonaro.

Na disputa simbólica entre os dois líderes, Lula aparece como vencedor: 44% afirmam que o presidente brasileiro está lidando melhor com a situação, contra 29% que dizem o contrário. A resposta firme do governo, com sinalizações de retaliação e defesa da soberania nacional, recebeu apoio de 53% da população.

Esse sentimento também tem servido para conter desgastes recentes, como o escândalo envolvendo fraudes no INSS e as derrotas no Congresso. A campanha institucional por justiça tributária e nacionalismo econômico tem ressoado nas redes sociais e colaborado para reverter parte do desgaste acumulado.

Justiça tributária tem apoio, mas engajamento ainda é baixo
Outro fator que contribuiu para a recuperação do governo foi a campanha pela taxação dos super-ricos. Embora apenas 43% dos entrevistados conheçam a proposta de “justiça tributária” e apenas 17% tenham assistido aos vídeos promocionais feitos com uso de inteligência artificial, a ideia encontra apoio majoritário: 63% defendem que os mais ricos paguem mais impostos, e 75% aprovam a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil.

No entanto, a estratégia comunicacional ainda enfrenta desafios. A abordagem “ricos contra pobres” adotada em parte da narrativa oficial não empolga: 53% dos entrevistados disseram discordar dessa formulação, o que, segundo Felipe Nunes, obriga o governo a rever sua tática de engajamento. “É a escolha tática que o governo vai ter que fazer assim que retomar o assunto”, afirmou.

Entre os eleitores sem identificação partidária, Lula avança
Um dos dados mais relevantes do levantamento está no avanço do governo entre eleitores que não se identificam nem com Lula nem com Bolsonaro. No campo do centro político, o saldo negativo caiu de -28 para -16 pontos, mostrando que o episódio com Trump alterou o humor de um eleitorado mais cético. “A melhora aconteceu na classe média, com maior escolaridade, no Sudeste. São os segmentos mais informados da população, que se percebem mais prejudicados pelas tarifas de Trump e que consideram que Lula está agindo corretamente”, afirmou Nunes.

Em contraste, entre os eleitores de baixa renda — especialmente os que recebem até dois salários mínimos — a avaliação do governo praticamente não se alterou. Já entre os que não são beneficiários do Bolsa Família, a desaprovação caiu de forma mais acentuada, indicando que os ganhos de imagem estão ocorrendo fora da base tradicional do PT.

Riscos e desafios pela frente
Apesar do avanço, a expectativa em relação à economia segue preocupante. A percepção de melhora é modesta, com destaque apenas para a redução do temor em relação à alta dos preços dos alimentos. Ainda assim, 43% dos entrevistados acreditam que a economia vai piorar nos próximos meses — um reflexo da instabilidade provocada pelas ações de Trump e da insegurança quanto ao cenário internacional.

A pesquisa Genial/Quaest foi realizada presencialmente entre os dias 10 e 14 de julho com 2.004 entrevistados. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com 95% de nível de confiança. O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos.