Crime Organizado (PCC e CV) x Terrorismo! O que está por trás da chacina no Rio de Janeiro?

Ultradireita explora violência urbana para vincular facções ao terrorismo e justificar políticas de exceção

A recente operação policial que deixou mais de 100 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, não pode ser compreendida apenas como um enfrentamento ao Comando Vermelho. O episódio revela uma estratégia política mais ampla, conduzida por governadores de perfil ultraconservador, que buscam construir um cenário de caos e guerra urbana para justificar a reclassificação das facções criminosas como organizações terroristas. A medida abriria espaço para que os Estados Unidos passem a tratar esses grupos sob o enquadramento de “ameaça à segurança nacional”, com base em dispositivos de contraterrorismo, permitindo interceptações, ações conjuntas de inteligência e até cooperação militar.

Essa lógica está alinhada ao que defende a Rand Corporation, think tank norte-americano ligado à área de segurança e defesa, segundo a qual designar grupos criminosos como terroristas “disponibiliza novas ferramentas legais e políticas” para sua repressão global. O mesmo discurso é reproduzido pela Casa Branca, que vê nas atividades dos cartéis e facções latino-americanos uma ameaça direta à segurança dos EUA e à estabilidade do Hemisfério Ocidental. Na prática, tal narrativa abre caminho para que as operações locais no Brasil sejam vistas como parte de uma agenda de segurança internacional, legitimando ações violentas sob o argumento de “emergência nacional”.

A coincidência política é reveladora: justamente no momento em que a aproximação entre Lula e Donald Trump desarma o discurso bolsonarista de antagonismo, lideranças da direita radical, como Flávio Bolsonaro, voltam a sugerir abertamente ações militares, a exemplo da proposta de bombardear a Baía da Guanabara. Governadores como Cláudio Castro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo-MG) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) têm se mobilizado para vincular facções ao terrorismo, com o primeiro chegando a falar em “narcoterrorismo”. No Congresso, o deputado Danilo Forte (União-CE) apresentou o PL 1283/2025, que amplia o conceito de terrorismo para abranger milícias e organizações criminosas.

Enquanto isso, o governo federal prepara uma resposta distinta, baseada em uma PEC da Segurança Pública e em um projeto de lei antimáfia, ambos focados no fortalecimento institucional e na repressão qualificada, sem recorrer à ampliação arbitrária do conceito de terrorismo. Ainda assim, o discurso do medo vem ganhando terreno. Governadores como Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Ratinho Júnior (PSD-PR) já colocaram suas tropas à disposição do governo do Rio, sob a justificativa de ausência de apoio federal. Em paralelo, articula-se uma reunião entre chefes de Executivos estaduais da direita para coordenar ações conjuntas, num movimento que mistura segurança pública e estratégia eleitoral.

No curto prazo, o Rio de Janeiro vive o risco concreto de uma escalada de violência, uma guerra civil não declarada, em que polícia e facções buscarão vingança pelos mortos da operação. A tragédia, contudo, revela um objetivo político: consolidar a narrativa de que o país está sob ameaça interna e, assim, pavimentar o terreno para políticas de exceção. Em nome da segurança, a ultradireita tenta reabrir o caminho para a tutela militar e para a interferência estrangeira nos assuntos internos brasileiros.

Crime organizado e terrorismo são coisas diferentes

As facções brasileiras atuam como empresas do crime, movidas por lucro, principalmente no tráfico de drogas, armas, extorsões e lavagem de dinheiro. Seu objetivo é controlar mercados e territórios, não impor ideologias ou disputar poder político.

Já o terrorismo, segundo a lei brasileira, envolve ataques violentos com motivação política, religiosa ou ideológica, destinados a espalhar medo, desestabilizar o Estado e atacar instituições. Ou seja: terrorismo não é apenas violência. É violência com projeto político.