Nestes dias de “cerco ao PT” não me preocupo com a crítica à direita.
Este povo só pensa na “minha esposa, minha mãe e meus filhos”
Preocupa-me a critica à esquerda. Sinto que querem ajudar, que querem crescer, mas em muitas oportunidades vejo injustiças nestas criticas e noto que elas existem num vazio já que não apresentam saídas, muito menos quem as encaminhe.
Hoje, em seu facebook, o professor Luis Felipe Miguel trata do assunto. E trata com extrema maturidade.
Faz a crítica necessária ao PT, reconhece seus acertos e quer usar a experiência petista para evoluir.
Tem humildade suficiente para dizer, quanto às saídas que a esquerda possa apresentar, que o “nó ainda não foi desatado” .
Assim acho que o intelectual de verdade deve agir: sobriedade para ler a situação, espírito crítico permanente e consciência para reconhecer que "a fórmula" não existe. Adorei o "gran finale" do professor: "mas é melhor tentar, sujando as mãos na prática política, do que permanecer no refúgio da pureza dos princípios." Fique agora com a integra do texto:
"É necessário refletir sobre o que deu tão errado, repensar os rumos da esquerda no Brasil. Há muito na conta do PT e foi indesculpável a capitulação de Dilma, no segundo mandato, ao programa da direita. De maneira geral, a estratégia lulista de julgar que os conflitos podem ser permanentemente escamoteados mostrou seus limites.Dito isto, não acho que a gente resolva nada repetindo o mantra "conciliação de classes não dá certo". A questão é: como promover transformações verdadeiras, partindo das circunstâncias reais que nos cercam? Lula e o PT frustraram aqueles que ansiavam por mudanças mais profundas e mais aceleradas, como eu mesmo. Mas não dá pra esconder que reduziram a miséria de um monte gente, colocaram na universidade um povo que não passava nem na porta, levaram luz elétrica para uma pá de vilarejos pobres do interior, estenderam direitos trabalhistas a grupos que não os tinham. Tudo com problemas e contradições: mas está aí. O intelectual radicalizado pode ficar sonhando, entre um gole de scotch e outro, com "la révolution catastrophique", como dizia Sorel, mas desconfio que o povão não ganha nada se apostar todas as suas fichas nesse evento tão longínquo e improvável. A conciliação de classes não dá certo, é verdade, mas o que podemos esperar hoje da guerra de classes, travada em condições tão desiguais?A experiência petista não pode ser descartada; precisa ser entendida e servir de base para novas soluções, que evitem seus equívocos. Creio que a força e os limites do lulismo nascem da mesma fonte, que é seu pragmatismo, seu extremo sentido de possibilidade. Mas, se estamos escolados demais, pela história do último século, para acreditar de verdade que a liberação virá de um evento único, a revolução, também o estamos para saber quão limitada é a margem para uma ação que recuse rupturas e se curve à institucionalidade dada.Acredito que esse nó ainda não foi desatado. Temos belas fórmulas - as "reformas revolucionárias" de Gorz, mais recentemente as "reformas não-reformistas" de Fraser - mas elas pouco nos dão além da retórica. Nossos recursos são poucos, nossas urgências são muitas, nossos sonhos são elevados. Resolver essa equação parece exigir uma virtù que supera o humano. Mas é melhor tentar, sujando as mãos na prática política, do que permanecer no refúgio da pureza dos princípios."
Nota do pensarpiaui:
Luis Felipe Miguel é professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Trabalha nas áreas de mídia e política, teoria da democracia, representação política e gênero