Como a mídia comercial viu as manifestações de ontem?

O tamanho dos atos gerarou desconforto não apenas na velha direita e na nova extrema direita, mas também em parte da grande imprensa

As manifestações realizadas no domingo superaram em muito as previsões mais otimistas. O tamanho dos atos contra a anistia aos golpistas do 8 de janeiro e contra a chamada PEC da Bandidagem foi expressivo, a ponto de gerar desconforto não apenas na velha direita e na nova extrema direita, mas também em parte da grande imprensa.

Ficou evidente a tentativa de jornais como Estadão, Folha e Globo de relativizar o impacto dos protestos, oferecendo contrapontos da direita a partir das próprias páginas. O esforço editorial parecia direcionado a dizer que os atos foram relevantes, mas “nem tanto”.

No Estadão, Diogo Schelp assinou chamada de capa: “Multidões contra blindagem e anistia expõem constrangimento do PT com pauta ética. O partido seria o mais apto a explorar esse ânimo popular renovado, mas fica meio ridículo na fantasia de defensor da ética na política”. Ao reduzir a mobilização antifascista e antigolpista a uma mera “pauta ética”, Schelp transformou protestos contra o golpismo e a impunidade em uma disputa sobre quem detém a bandeira da moralidade.

No Globo, Vera Magalhães seguiu linha semelhante ao intitular sua coluna: “Após 20 anos, esquerda retoma bandeira do combate à corrupção”. A palavra “corrupção” — tão explorada pela direita moralista, dominada por escândalos de corrupção desde antes do mensalão e do lavajatismo — foi apresentada como a razão que teria levado milhares às ruas.

Mas não foi disso que se tratou. A pauta das ruas em 21 de setembro não girou em torno da corrupção, e sim de temas como “bandidagem”, “anistia”, “golpismo”, “fascismo”, “ditadura”, “soberania” e até “Palestina”. Não havia cartazes nem gritos de guerra contra a corrupção. O que estava em jogo era a resistência ao fascismo, a tentativa de impedir a impunidade de golpistas e de enfrentar uma bandidagem política que ameaça se confundir com o crime organizado.

É claro que a manipulação das emendas parlamentares envolve corrupção, mas esse não foi o eixo das manifestações. A pauta estava situada em um patamar mais amplo: a defesa da democracia diante das ameaças da extrema direita.

A cobertura dos “jornalões” expôs certo incômodo. A Folha chegou a inserir, em meio à reportagem sobre os protestos, fotos da manifestação de 7 de setembro convocada por Silas Malafaia, em uma tentativa desajeitada de oferecer um contraponto.

No entanto, os números não deixam margem para dúvida: mais de 40 mil pessoas ocuparam as ruas no Rio de Janeiro e em São Paulo. A dimensão dos protestos surpreendeu até setores da esquerda e desagradou profundamente à direita e à extrema direita — e também aos veículos que preferiam não noticiar o que de fato aconteceu no domingo.