Ciro Nogueira vai renunciar

O mandato de Ciro Nogueira teria sido alugado ou comprado por Daniel Vorcaro

Por José Salan Barbosa Melo, engenheiro, ex-presidente da Eletrobras Piauí

“O que vai nortear a minha trajetória de vida é minha história. O povo do Piauí pode ter toda certeza de que se algum dia na vida, alguma denuncia contra o senador Ciro seja comprovada, eu renuncio meu mandato. Jamais vou voltar ao meu estado, olhar o povo de minha terra, olho no olho, se eu não tiver a autoridade e a confiança de meu povo”.

Essas palavras firmes e assertivas foram pronunciadas pelo Senador Ciro Nogueira no dia 16 de março de 2026 durante o lançamento da pré-candidatura de Joel Rodrigues ao Governo do Estado, no calor das acusações de envolvimento do Senador com o escândalo do Banco Master e na esteira de muitas outras denúncias que pululavam todos os dias nas telas digitais das redes sociais e da mídia tupiniquim. Poucos se defendem com essa ênfase toda, se não tiver muita convicção de sua inocência.

Não havia um lugar mais apropriado para Ciro fazer esta declaração do que o espaço da renovação de compromissos com “seu povo”, exatamente ao lado do pré-candidato Joel Rodrigues, a quem buscava referendar como um homem íntegro e comprometido com as causas nobres do povo do Piauí. Esse povo que ele tanto ama, que lhe concedeu todo poder político e que lhe possibilitou angariar grande parte do império econômico que erigiu ao longo de sua trajetória política.

Diante dessas palavras em que Ciro não deixou nenhum espaço para dúvida ou desconfiança e diante do que vimos na decisão do Ministro André Mendonça, consubstanciada em apurações da Polícia Federal e amplamente divulgada no último dia 7, pode-se dar como certa a renúncia do senador a qualquer instante.

Conforme a investigação, Felipe Vorcaro, sobrinho de Daniel Vorcaro, atuava como operador financeiro do tio. A PF identificou elementos que o vinculam diretamente à operacionalização de supostas vantagens destinadas ao parlamentar.

Na própria decisão, o Ministro André Mendonça afirma que “os elementos descritos na representação são suficientes para indicar o estabelecimento de um arranjo funcional para obtenção de benefícios mútuos entre o Senador CIRO NOGUEIRA e DANIEL VORCARO. Não se afigura ordinário que uma atuação política regular e legítima ensejem: (1) a aquisição de participação societária estimada em aproximadamente R$ 13 milhões pelo valor de R$ 1 milhão; (2) a realização de repasses mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil por intermédio de pessoa jurídica ligada à chamada “parceria BRGD/CNLF”.

Isso é o que podemos chamar de BOLSA FAMÍLIA NOGUEIRA. 

Em boletim do próprio Supremo Tribunal Federal, STF, publicado em 07 de maio de 2026 e atualizado às 11:20, “A PF aponta que Ciro Nogueira apresentou uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65/2023, que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Segundo a investigação, o texto teria sido elaborado pela assessoria do Banco Master e entregue ao parlamentar. Vorcaro teria afirmado a interlocutores que, logo após a publicação da proposta de emenda, o ato legislativo saiu exatamente como havia sido enviado”.

Ou seja, não se deu ao trabalho de nem adaptar o projeto para algo menos prejudicial ao mercado financeiro e ao país. É uma atitude que demonstra que seu mandato teria sido alugado ou comprado por Daniel Vorcaro.

O boletim do STF traz ainda informações de que além dos repasses de valores acima, “o senador teria sido beneficiado por usufruto de imóvel de propriedade de Vorcaro e custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados”.

Para não deixarmos passar em branco, devemos lembrar que Ciro, até antes do escândalo do Banco Master, estava cotado para ser candidato a vice-presidente na chapa da extrema direita. Não podemos esquecer que o Senador foi durante muito tempo o Ministro Chefe da Casa Civil, o coordenador do Governo Bolsonaro.

Apesar do esforço da extrema direita para vincular o Governo do Presidente Lula ao Banco Master, é o bolsonarismo que está mergulhado nesse mar de lama. Flávio Bolsonaro chegou a dizer que Ciro seria uma ótima opção para ser candidato a vice presidente. “Tem um bom perfil e todas as credenciais para ser o vice”. (Declaração à Folha de São Paulo em junho de 2025).

Quem está impactado com as revelações do Banco Master, não imagina o que pode advir com possíveis descobertas da abertura das “caixas pretas” ou caixas de pandora de seus outros amigos de vida companheiros de viagens e conexões e ramificações, como: Mohamed Rossim Murad, o Primo e Roberto Leme da Silva, o Beto Louco e mais ainda Fernando Oliveira Lima, o Fernandim e seus tigrinhos e tigrões. Pensou que acabou? Tem mais: Haran Santiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa. Todas personagens obscuras de um mundo pouco conhecido.

PS: Não podemos esquecer o seu sócio no empreendimento formado pelo PP e pelo União Brasil, a União Progressista, seu parça Antônio Rueda.

Neste momento, o Senador Ciro Nogueira deve estar reunindo forças e preparando um pronunciamento ao povo do Piauí e do Brasil, anunciando uma decisão para entrar na história. Sugiro a ele uma frase de impacto para acrescentar ao seu pronunciamento. “Saio da política para entrar na história”. Afinal será um gesto digno de que, pelo menos no último momento de sua vida pública cumpriu uma vez com sua palavra e que será lembrado e referenciado por muitos e muitos anos.

Mesmo que ele saia da política para entrar em um presídio, não invalida a frase, talvez até a enriqueça.