A entrada de Tarcísio de Freitas (Republicanos) na engrenagem da chamada “anistia” trouxe à tona um jogo ainda mais revelador: o de Ciro Nogueira (PP-PI). Sob o pretexto de salvar Jair Bolsonaro (PL) da prisão iminente, o senador age como verdadeiro operador de bastidores para garantir não apenas a sobrevida do ex-presidente, mas, sobretudo, a sua própria. Nas entrelinhas, fica evidente que Nogueira não trabalha para Bolsonaro — trabalha para si, de olho na transferência do eleitorado radical e em um lugar privilegiado: a vice na chapa de Tarcísio.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Nogueira deixou escapar mais do que gostaria. Disse que já conversou com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a anistia e repetiu que recebeu de Bolsonaro a “missão” de articular o tema em Brasília. O discurso, no entanto, é carregado de conveniência. Ao mesmo tempo em que posa como emissário do ex-presidente, o senador trata de empurrar para o canto qualquer debate sobre a reversão da inelegibilidade, reforçando que a única saída será a transferência dos votos bolsonaristas para outro nome. E, nesse cálculo, o candidato já tem dono: Tarcísio de Freitas.
A estratégia é evidente: vitimizar Bolsonaro, reforçar sua fragilidade de saúde e, em paralelo, convencê-lo de que só há uma solução viável — abrir mão de qualquer chance de voltar às urnas em 2026. “Não estamos tratando de inelegibilidade”, disparou Nogueira, praticamente selando o destino do aliado. Ao fazer isso, o senador se blinda e se posiciona como peça indispensável do tabuleiro, não apenas como articulador, mas como herdeiro natural de um prêmio de consolação: a vice-presidência.
A cronologia também serve ao seu propósito. Nogueira crava que até janeiro de 2026 Bolsonaro terá de ungir Tarcísio, como se ditasse regras ao clã. E faz pouco caso da resistência da família, que insiste em manter o sobrenome Bolsonaro na urna. “O comando é do pai. O líder é ele”, afirmou, ao mesmo tempo em que deixa claro que não acredita em Eduardo, Flávio ou qualquer outro. Para o senador, a dinastia só serve até o limite da transferência de votos — depois, todos devem obedecer.
Nogueira ainda aproveita para alvejar o próprio “03”, Eduardo Bolsonaro, acusando-o de agir contra o país ao conspirar com Donald Trump em favor de tarifas que prejudicam o Brasil. Um gesto calculado: desmoraliza o filho, enfraquece o clã e reforça sua posição como mediador racional e, sobretudo, indispensável.
Mas a equação não é tão simples. Reportagem de O Globo, assinada por Malu Gaspar, mostra que Bolsonaro não está nada satisfeito com a fritura conduzida por Nogueira. De dentro da mansão onde cumpre prisão domiciliar, o ex-presidente reclama que o senador estaria tentando empurrá-lo para fora do jogo para garantir apenas “os votos bolsonaristas” e costurar seu espaço ao lado de Tarcísio.
No fim, a anistia aparece menos como um projeto de “justiça” e mais como a senha para um rearranjo político no qual Ciro Nogueira se coloca como protagonista. Não se trata de salvar Bolsonaro da prisão, mas de salvar a si mesmo — custe o que custar, inclusive a fidelidade ao líder que, até aqui, serviu de escada.