Às claras, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) se apresenta como um dos mais fiéis defensores de Jair Bolsonaro. Discursos inflamados e declarações de lealdade ao ex-presidente reforçam sua imagem no campo bolsonarista. Mas nos bastidores, a lógica é outra: Nogueira trabalha para manter a inelegibilidade de Bolsonaro, abrindo caminho para se colocar como vice em uma eventual candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2026. A defesa pública serve ao discurso político; a articulação privada serve ao projeto de poder.
Foi nesse contexto que, nesta sexta-feira (19), o senador recebeu o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do chamado “PL da Dosimetria”. O encontro é parte do “pacto republicano” anunciado dias antes com Michel Temer (MDB) e Aécio Neves (PSDB). A operação política mira sepultar a anistia ampla, frustrando a expectativa de Bolsonaro, e substituir o termo maldito por uma proposta de “redução de penas” dos condenados pelos atos golpistas de 8 de Janeiro.
Paulinho justificou a aproximação: “Procurei o senador para falar um pouco do que a gente está pensando, um projeto que não é exatamente anistiar, mas diminuir a pena das pessoas. Imagino que uma proposta intermediária poderia pacificar o país. Sei dos seus compromissos, mas fiz questão de vir aqui falar contigo sobre esse novo momento que o Brasil precisa de pacificação”, declarou o deputado, alçado à relatoria por Hugo Motta (Republicanos-PB).
Ciro Nogueira devolveu a cortesia. Em discurso calibrado, disse continuar a defender a “anistia ampla, geral e irrestrita”, mas acenou para um acordo rápido de meio termo: “Temos um país tão dividido. Sua missão não é fácil, porque há quem defenda a anistia total e quem rejeite qualquer perdão. Então será preciso ouvir todos os lados. Você é um homem experiente e tenho certeza de que precisamos sair desse processo melhores do que estamos hoje. E que isso aconteça rapidamente”, afirmou o senador.
Em seguida, deixou claro o recado: para ele, o debate sobre a anistia já se tornou uma pauta estéril. Classificando-a como “discussões inúteis”, Nogueira indicou estar disposto a conduzir sua bancada — 109 deputados, a maior da Câmara, além de 15 senadores do PP/União Brasil — para respaldar a dosimetria. “O Brasil não aguenta mais esse assunto sem fim. Precisamos cuidar da segurança, da saúde, da educação. Essa é a verdadeira missão. É hora de encerrar discussões inúteis que não ajudam o país”, concluiu.
A manobra por trás do discurso
O encontro revela uma engrenagem dupla: de um lado, Paulinho da Força tenta vender a “dosimetria” como solução conciliatória, fugindo da palavra anistia, mas preservando seu espírito. De outro, Ciro Nogueira capitaliza a negociação para enfraquecer ainda mais Bolsonaro — agora condenado e inelegível —, enquanto pavimenta o caminho para o projeto que realmente o interessa: a composição de uma chapa presidencial liderada por Tarcísio de Freitas.