O chapéu que passou a acompanhar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em compromissos públicos não é apenas um acessório de moda. Usado para proteger do sol a região submetida recentemente a um procedimento cirúrgico, ele também chama atenção pelo simbolismo histórico.
Lula segue recomendação médica ao proteger a área durante sua recuperação, mas mantém a agenda de trabalho. Em vez de transformar o período pós-operatório no centro de sua comunicação política, o presidente aparece cumprindo compromissos e adotando o chapéu como proteção.
E é justamente aí que começa outra história.
O modelo escolhido por Lula remete ao famoso chapéu Panamá, uma peça que, apesar do nome, nasceu no Equador e atravessou fronteiras até se transformar em um dos chapéus mais conhecidos do mundo.
Chapéu Panamá não nasceu no Panamá
O nome engana.
O tradicional chapéu Panamá tem origem equatoriana e está ligado a uma longa tradição artesanal do país. Produzido com fibras vegetais e técnicas transmitidas por gerações, tornou-se conhecido internacionalmente depois de circular pelo Panamá, especialmente no período de construção do Canal do Panamá.
A associação foi tão forte que o nome do país acabou batizando mundialmente uma peça cuja origem é equatoriana.
O chapéu, portanto, ajuda a contar parte da história latino-americana: povos originários, artesanato, comércio internacional, grandes obras de infraestrutura e a relação entre a América Latina e as potências econômicas.
De Getúlio Vargas a Santos Dumont
No Brasil, modelos semelhantes também aparecem associados a personagens importantes da história nacional.
O presidente Getúlio Vargas foi fotografado em diferentes ocasiões usando chapéus claros no estilo Panamá, peça bastante popular entre políticos e homens públicos de sua época.
Outro brasileiro frequentemente lembrado com esse tipo de chapéu é Alberto Santos Dumont, pioneiro da aviação e uma das figuras brasileiras de maior projeção internacional no início do século XX.
E a lembrança de Santos Dumont acrescenta uma curiosidade especialmente simbólica ao momento atual.
O brasileiro é reconhecido no Brasil como o Pai da Aviação, enquanto nos Estados Unidos a primazia do primeiro voo é tradicionalmente atribuída aos irmãos Wright. A histórica controvérsia sobre quem inventou o avião atravessa mais de um século e continua alimentando diferentes narrativas nacionais.
Chapéu de Lula ganha simbolismo em momento de tensão com os EUA
É justamente neste contexto que o chapéu usado por Lula pode ganhar uma leitura que vai muito além da proteção contra o sol.
Em um período de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, com tarifas norte-americanas atingindo produtos brasileiros e reacendendo o debate sobre soberania nacional, a imagem do presidente usando um modelo associado a Santos Dumont permite uma leitura política carregada de simbolismo.
Não significa necessariamente que Lula tenha escolhido o chapéu para transmitir essa mensagem. A razão prática para utilizá-lo é médica.
Mas a política também é feita de imagens, referências e símbolos.
Enquanto protege a região da cirurgia e mantém sua agenda, Lula aparece usando uma peça que atravessa a história da América Latina, passa pelo Equador e pelo Canal do Panamá e chega ao Brasil de Getúlio Vargas e Santos Dumont.
É apenas um chapéu? Pode ser. Mas, sobre a cabeça de um presidente da República, em tempos de disputa por soberania, até um chapéu pode contar uma história.