Caso Ana Paula: o que se sabe sobre o feminicídio de advogada em MG

Advogada criminalista tinha medida protetiva e MP pediu prisão do ex-marido horas antes do crime

A advogada Ana Paula Rocha de Jesus, de 45 anos, foi assassinada a tiros pelo ex-marido, Lucas Gomes Pinto, em Governador Valadares (MG), que se suicidou em seguida. Ativista pelo direito das mulheres, ela possuía medida protetiva e havia denunciado novas perseguições dias antes. O Ministério Público pediu a prisão do agressor horas antes do crime.

O que aconteceu

Na tarde de terça-feira (16), a advogada criminalista Ana Paula Rocha de Jesus foi emboscada e morta a tiros por seu ex-marido, Lucas Gomes Pinto, em um estacionamento na Rua Belo Horizonte, no Centro de Governador Valadares, região do Leste de Minas Gerais. Câmeras de segurança registraram o momento em que a vítima chegou ao local para buscar seu veículo e tentou fugir ao notar a presença do homem, mas foi alcançada e baleada. Logo após os disparos, o autor cometeu suicídio. A Polícia Civil investiga o caso como feminicídio seguido de suicídio.

O crime ocorreu em meio a um longo histórico de violência doméstica. O casal estava separado há cerca de três anos, período no qual Ana Paula sofria perseguições recorrentes. Dois dias antes do assassinato, no domingo (14), ela registrou um boletim de ocorrência relatando que o ex-marido havia descumprido a medida protetiva ao ir a um bar onde ela se encontrava, proferindo ofensas e ameaças públicas. Na segunda-feira (15), a advogada procurou novamente o Ministério Público para reportar novas investidas que lhe causavam profundo abalo emocional e medo.

Ao longo dos anos, o Judiciário concedeu três medidas protetivas em favor de Ana Paula, sendo a primeira em 2024. Contudo, duas delas foram revogadas a pedido da própria advogada. Segundo a promotora de Justiça Carla Salaro, uma dessas revogações aconteceu para viabilizar o acompanhamento familiar durante o tratamento de uma das filhas do casal, que sofria de um câncer em estágio terminal. Como forma de assistência e prevenção, o Ministério Público buscou implementar monitoramento eletrônico do agressor, encaminhamento dele a grupos reflexivos para autores de violência doméstica, além de fornecer o dispositivo do botão do pânico para a advogada.

Diante do agravamento da situação, o Ministério Público já havia solicitado a prisão preventiva de Lucas em novembro de 2025, mas o pedido foi indeferido pela Justiça. Na tarde do crime (16), poucas horas antes do desfecho fatal, a promotoria protocolou um novo pedido de prisão preventiva fundamentado nos recentes descumprimentos das ordens judiciais, que não chegou a ser tempo de evitar o assassinato.

Ironicamente, Ana Paula dedicava parte de sua carreira à conscientização sobre a violência de gênero, participando ativamente de palestras, debates e ações educativas. Cerca de um mês antes de morrer, ela concedeu entrevista a um podcast reforçando a importância fundamental das medidas protetivas para resguardar a integridade das mulheres.

O delegado Márdio Bento Costa informou que a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar todas as circunstâncias do fato. Mesmo com a extinção da punibilidade do autor em razão de sua morte, as investigações continuam com a coleta de laudos periciais e provas técnicas para a completa elucidação do caso. Os velórios de Ana Paula e de Lucas Gomes Pinto foram agendados para esta quinta-feira (18) no Memorial Park, em Governador Valadares, com sepultamentos programados para o período da tarde.