A repercussão dada pela imprensa nacional a um suposto acordo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, para isolar politicamente o senador Ciro Nogueira no Piauí trouxe à tona uma articulação que, na prática, não é recente. Embora o entendimento entre Lula e Kassab exista e tenha sido confirmado por lideranças partidárias, os movimentos que consolidaram a candidatura do deputado federal Júlio César ao Senado foram costurados bem antes, no âmbito da política local.
Nesta semana, Júlio César apareceu ao lado de Lula em agenda pública e foi chamado pelo presidente de “meu senador”, gesto que reforçou as leituras sobre um acordo nacional. No entanto, a construção dessa aliança passa diretamente pelo ex-governador e atual ministro Wellington Dias e pelo governador Rafael Fonteles, que há tempos mantêm diálogo estável com o grupo político liderado por Júlio César.
Wellington Dias, inclusive, sempre manteve canais abertos com o deputado. A relação se reflete no fato de a senadora Jussara Lima, esposa de Júlio César, ter chegado ao Senado como suplente de Wellington Dias, após sua saída da Casa para assumir o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Já Rafael Fonteles também construiu relação política sólida com o grupo, tendo no deputado estadual Georgiano Neto, filho de Júlio César, um dos principais aliados no Parlamento piauiense.
No campo oposto, Ciro Nogueira aprofundou o isolamento político desde o rompimento com Wellington Dias. Nos últimos anos, tornou-se um crítico contundente dos governos do PT no estado, tanto das gestões de Wellington quanto da atual administração de Rafael Fonteles, além de manter postura de enfrentamento direto ao governo Lula. Essa trajetória contrasta com o passado, quando Ciro buscou proximidade com o campo petista antes de migrar para o bolsonarismo e assumir o Ministério da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro.
O cenário projetado para 2026 indica que o senador Marcelo Castro deve disputar a reeleição com ampla vantagem, enquanto Júlio César aparece como nome competitivo para a segunda vaga. Ciro Nogueira, que encerra mandato no mesmo pleito, enfrenta dificuldades em um estado de forte inclinação lulista. Diante desse quadro, chegou a tentar se viabilizar como vice em uma eventual chapa presidencial encabeçada por Tarcísio de Freitas, articulação que não prosperou. Com Flávio Bolsonaro despontando como nome do PL para a Presidência, cresce no PP a aposta na senadora Tereza Cristina como possível vice.
Assim, embora Lula e Kassab tenham alinhado posições no plano nacional, a sustentação política da aliança no Piauí foi construída e legitimada, sobretudo, pelas lideranças locais de Wellington Dias e Rafael Fonteles, que deram o aval definitivo à estratégia eleitoral em curso.