Anunciado durante a cúpula de 2024, realizada em Kazan, na Rússia, o BRICS Pay é uma plataforma de pagamentos digitais criada pelos países do bloco como alternativa ao dólar no comércio internacional. Inspirado no modelo brasileiro do Pix, o sistema entrou em sua fase inicial de testes em agosto de 2025, liderado por China e Rússia, com participação destacada do Brasil, graças à expertise adquirida com o sucesso do Pix.
Um sistema próprio para pagamentos internacionais
Com base em tecnologia blockchain, o BRICS Pay foi projetado para viabilizar transações instantâneas, seguras e de baixo custo entre bancos centrais e instituições financeiras dos países-membros. A proposta é conectar sistemas de pagamento nacionais já existentes — como o Pix (Brasil), SBP (Rússia), UPI (Índia), IBPS (China) e PayShap (África do Sul) — em uma única rede interoperável.
Brasil em posição de destaque
Lançado em 2020, o Pix movimentou R$ 7 trilhões somente no primeiro trimestre de 2025 e já responde por quase metade das transações eletrônicas no Brasil. Esse desempenho transformou o país em uma referência global e garantiu ao Brasil papel central no desenvolvimento do BRICS Pay. O sistema ainda abre espaço para a futura integração do Drex, o real digital, atualmente em testes. Durante a cúpula, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a nova plataforma como um instrumento de soberania econômica para o bloco.
Infraestrutura descentralizada
O funcionamento do BRICS Pay é sustentado pelo Decentralized Cross-border Messaging System (DCMS), desenvolvido pela Universidade Estatal de São Petersburgo. O sistema descentralizado suporta até 20 mil mensagens por segundo, adota múltiplos protocolos de criptografia e não depende de um núcleo controlador centralizado, como o sistema SWIFT, amplamente utilizado no Ocidente.
Desafios à frente
A principal dificuldade, segundo especialistas, será integrar sistemas de países com moedas, legislações e infraestruturas financeiras distintas. Questões tributárias, cambiais e tensões geopolíticas internas — especialmente entre China e Índia — também representam obstáculos. Ainda assim, projeções indicam que o BRICS Pay poderá movimentar centenas de bilhões de dólares por ano até 2030, fortalecendo a autonomia econômica do bloco.
Ganhos estratégicos para o Brasil
Setores como agronegócio, mineração e energia devem ser os mais beneficiados, ao viabilizar transações diretas em moedas locais com parceiros estratégicos como China e Índia. Ao eliminar a necessidade de conversão para o dólar, empresas brasileiras podem reduzir custos e aumentar sua competitividade internacional.
Um novo capítulo na ordem econômica global
Mais do que um avanço tecnológico, o BRICS Pay representa uma mudança política significativa. Trata-se de uma tentativa concreta de reduzir a hegemonia do dólar no sistema financeiro global. Com testes já em andamento, o projeto se consolida como uma das principais apostas do bloco para redesenhar o comércio internacional nas próximas décadas.
Reações globais
Desde o anúncio em 2024, a iniciativa tem enfrentado resistência dos Estados Unidos. O então presidente Donald Trump criticou duramente o BRICS Pay, chamando-o de “antiamericano” e ameaçando impor tarifas de até 100% a países que diminuírem o uso do dólar. A reação revela a preocupação de Washington com a possível perda de influência, já que hoje cerca de 84% das transações internacionais ainda são realizadas na moeda norte-americana.