Bolsonaro cavou a própria prisão? O cálculo por trás da desobediência ao STF

Ao desafiar o STF e ser punido, Bolsonaro aposta na vitimização e no apoio da base bolsonarista para retomar protagonismo político.

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, escancarou uma pergunta que, desde domingo, ronda bastidores de Brasília e analistas políticos: por que o ex-presidente violou de forma tão explícita as medidas cautelares que lhe haviam sido impostas? Teria “cavado a falta” de propósito? Ou subestimou, mais uma vez, a disposição do Judiciário em reagir com firmeza?

Para a jornalista Renata LoPrete, âncora do Jornal da Globo, a resposta passa longe da ingenuidade. Bolsonaro sabia exatamente o que estava fazendo. Ao participar de manifestações nas ruas, mesmo sob medida que o proibia de se manifestar nas redes — direta ou indiretamente — o ex-presidente agiu de forma deliberada. “Ele fez isso para mobilizar sua base, nas ruas, nas redes sociais e no Congresso Nacional. É um cálculo político”, avalia LoPrete.

O raciocínio é direto: ao desafiar o Supremo e sofrer uma nova punição, Bolsonaro tenta capitalizar politicamente a condição de perseguido. A estratégia é antiga — se vitimizar para manter o fervor da militância — mas agora vem acompanhada de um movimento internacional. Segundo LoPrete, Bolsonaro mira também no governo Trump, que recentemente impôs sanções ao ministro Alexandre de Moraes por meio da Lei Magnitsky. Ao se colocar como mártir, o ex-presidente brasileiro acena a setores da extrema direita global e dá combustível a parlamentares trumpistas que veem na Justiça brasileira um inimigo comum.

A decisão de Moraes, que transformou a tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar, veio na esteira de um conjunto de sinais ignorados por Bolsonaro. Como lembra LoPrete, ele já sabia que a corda estava no limite: as imagens em que aparece discursando para militantes em Copacabana no domingo, a exibição da tornozeleira como símbolo de afronta ao STF, e o uso de aliados como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira para ecoar sua voz digitalmente, compõem um "modus operandi criminoso", segundo o próprio Moraes.

Portanto, não se trata de erro tático ou de impulsividade. Bolsonaro fez uma escolha: a de romper as regras, sabendo que seria punido, para gerar barulho. A prisão domiciliar, nesse contexto, vira palanque. No seu cálculo, quanto maior a punição, maior a chance de retomar protagonismo entre apoiadores e reforçar a narrativa de guerra contra as instituições. A jogada foi pensada . E executada com precisão.