Bolsonarismo em fúria: ataques ao STF expõem desespero e estratégia de confronto

O que se viu foi um discurso cada vez mais inflamado contra o Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes

Em um domingo marcado por manifestações bolsonaristas em várias cidades brasileiras, o que se viu não foi apenas a defesa da anistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, mas também um discurso cada vez mais inflamado contra o Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes. Em meio à crescente pressão judicial sobre Jair Bolsonaro, figuras centrais do bolsonarismo — Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira — assumiram o protagonismo nas ruas, enquanto o ex-presidente permanecia recolhido em sua casa, vestindo a simbólica camisa verde e amarela, bermuda e tornozeleira eletrônica.

O tom dos discursos foi de confronto explícito, com xingamentos, ataques pessoais e bravatas políticas. Em Copacabana, no Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chamou Alexandre de Moraes de “vagabundo” diante de centenas de apoiadores. Disse ter visitado o pai no dia anterior e se disse “triste” ao vê-lo recluso com uma tornozeleira carregando na tomada — “como se fosse um bandido”. A cena, segundo ele, o encheu de coragem para pedir o impeachment de Moraes, a quem acusou de “destruir a democracia”. A inversão de papéis, nesse caso, é simbólica: quem protagonizou ataques ao sistema democrático acusa o ministro responsável por conter a tentativa de golpe de agir contra a Constituição.

Já em Belém, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também adotou o tom bélico, dirigindo ofensas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamou de “cachaceiro sem-vergonha”. Sua ausência na Avenida Paulista, onde se concentrava a principal expectativa do bolsonarismo, causou incômodo entre aliados e foi interpretada como sinal de desarticulação. Michelle, vista por parte da base bolsonarista como uma possível herdeira política de Jair Bolsonaro, optou por manter-se distante do centro das atenções e preferiu uma fala dura e caricata num palanque alternativo.

Enquanto isso, em Belo Horizonte, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) fez do microfone um instrumento de escárnio institucional. Ao atacar Alexandre de Moraes, ironizou: “Sem toga você é nada”. Referiu-se à sanção imposta pelos Estados Unidos ao ministro como um “dia Magnitsky” e defendeu, em tom jocoso, a atuação do deputado Eduardo Bolsonaro, que trabalhou diretamente para inserir Moraes na lista de sancionados por Washington. Segundo Nikolas, Eduardo apenas “fritou um cabeça de ovo”, expressão vulgar e desrespeitosa, que expõe o grau de degradação do debate público entre setores do bolsonarismo.

A pergunta que se impõe é se esse tipo de comportamento — que flerta abertamente com o autoritarismo — representa um momento de desespero ou apenas reforça a aposta do bolsonarismo em manter a confrontação como estratégia política. Em meio ao isolamento de Jair Bolsonaro, impedido judicialmente de aparecer nos atos e afastado das redes sociais, as figuras de seu entorno tentam preencher o vácuo com gritos, insultos e gestos performáticos. Mas o efeito pode ser ambíguo: ao mesmo tempo em que galvanizam os seguidores mais fiéis, afastam setores moderados e aprofundam o desgaste institucional.

As faixas em inglês vistas nos atos, pedindo ajuda a Donald Trump e agradecendo ao ex-presidente norte-americano, só reforçam essa lógica. Entre os dizeres, estavam frases como “SOS Trump help the people of Brasil” e “Thank you Trump”, além de banners com os slogans “BolsoTrump” e “TrumpNaro”. É um bolsonarismo que já não se contenta em confrontar as instituições nacionais, mas que busca respaldo internacional em figuras igualmente controversas e autoritárias.

A cena de Jair Bolsonaro em casa, de tornozeleira eletrônica, enquanto seus aliados destilam ódio nas ruas, é o retrato simbólico de um movimento político em xeque. Isolado, sem articulação estratégica clara e acuado pelo avanço das investigações, o ex-presidente assiste, à distância, à radicalização de sua própria tropa.