As articulações de Flávio Bolsonaro para beneficiar o crime em plena CPI

Filho de Jair Bolsonaro busca acesso direto ao Disque Denúncia. Estratégia gera temor de monitoramento de operações contra milícias

Fórum - Enquanto o Senado inicia as oitivas da cúpula da Polícia Federal na CPI do Crime Organizado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) articula nos bastidores para abrir um canal direto com denúncias de crimes no Rio de Janeiro.

Dois requerimentos protocolados pelo parlamentar, obtidos pela Fórum, revelam uma tentativa de trazer para dentro da comissão tanto as informações sigilosas do Disque Denúncia quanto agentes da segurança pública fluminense.

A manobra cria, na prática, uma ponte entre investigações sensíveis sobre milícias e um espaço político controlado por um parlamentar cujo antigo gabinete já foi investigado por ligações com o "Escritório do Crime".

No requerimento nº 098/2025, Flávio solicita oficialmente a requisição de dois servidores públicos do estado do Rio de Janeiro para compor a equipe da CPI, com ônus para o Senado Federal.

O pedido exige um agente da Polícia Civil e um da Polícia Militar do RJ. A justificativa oficial é auxiliar na apuração do "modus operandi" das facções.

Contudo, nos bastidores, a medida é vista como a inserção de "olheiros". Levar agentes da ativa do Rio para o centro das apurações em Brasília garante acesso privilegiado a cronogramas de operações que deveriam ser mantidos em sigilo absoluto.

Acesso direto ao Disque Denúncia

Ainda mais alarmante é o requerimento nº 096/2025. Nele, o senador pressiona o Instituto MovRio para que o Disque Denúncia crie um canal específico para a CPI.

O objetivo declarado é permitir que a população contribua de "forma segura". Porém, o modelo quebra a lógica de proteção do serviço. O Disque Denúncia opera filtrando dados para proteger a identidade do denunciante antes de acionar a polícia.

Ao tentar "plugar" a CPI a esse fluxo, Flávio reconfigura o desenho da inteligência. Informações cruas sobre o paradeiro de milicianos ou rotas de tráfico passariam a circular em uma comissão parlamentar, aumentando o risco de vazamentos para os próprios investigados.

Histórico de "Escritório do Crime"

O temor de vazamentos não é abstrato. O senador possui um histórico de proximidade com figuras ligadas a grupos paramilitares. Investigações passadas do Ministério Público do Rio (MP-RJ) apontaram que o antigo gabinete de Flávio na Alerj empregou parentes do ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe da milícia "Escritório do Crime". Além disso, durante a CPI da Pandemia, o senador tentou obter acesso irrestrito a documentos sigilosos, incluindo quebras de sigilo telefônico e bancário, o que gerou forte reação do colegiado à época.

O que está em jogo

A CPI do Crime Organizado, presidida pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), foi instalada com a promessa de não servir de palanque político.

Agora, a comissão enfrenta seu primeiro teste de fogo: decidir se entrega a aliados do bolsonarismo as chaves do cofre de denúncias do Rio de Janeiro, ou se blinda as investigações contra a interferência política.