Os Estados Unidos sempre se apresentaram ao mundo como a “terra das liberdades”. É quase um slogan oficial, uma marca registrada desde que a Constituição norte-americana foi escrita com a tinta da independência e da promessa de direitos inalienáveis. Lá, nos papéis empoeirados de 1787, está expresso de maneira clara o valor supremo da liberdade de expressão – fundamento da democracia, orgulho nacional, vitrine para o planeta.
Mas eis que surge Donald Trump, o autoproclamado paladino do conservadorismo americano, decidido a reescrever esse manual das liberdades ao seu modo. Recentemente, em mais um de seus surtos autoritários, Trump sugeriu que a Comissão Federal de Comunicações (FCC) deveria revogar as licenças de emissoras de TV que o criticam demais. Em bom português: se falar mal do chefe, desliga-se o microfone. O ex-presidente – e novamente presidente – que tanto fala de “democracia ameaçada” acha perfeitamente normal calar jornalistas e humoristas porque, segundo ele, são “97% negativos” contra sua imagem.
Trump comemorou a suspensão do programa de Jimmy Kimmel pela rede ABC como se fosse uma vitória pessoal. Não satisfeito, atacou também Jimmy Fallon e Seth Meyers, chamando-os de “perdedores completos” que deveriam ser cancelados. A ironia é que, em nome de combater a “ditadura da esquerda”, o republicano flerta abertamente com uma forma bastante peculiar de censura – aquela que cala o riso, a crítica e a pergunta incômoda.
Se dúvidas restavam, basta lembrar o episódio no qual mandou a repórter Ebony Mcmorris ficar “quieta” e a classificou como “irritante”. Um presidente dos Estados Unidos, no Salão Oval, reduzindo o direito de questionar a um capricho pessoal. A famosa liberdade de expressão, nesse caso, parece depender do humor do ocupante da Casa Branca.
E aqui cabe um comentário que atravessa fronteiras: no Brasil, os bolsonaristas não perdem a oportunidade de bradar pela “liberdade”. Liberdade de atacar o STF, de espalhar fake news, de pedir golpe militar em praça pública. Mas quando Trump, o ídolo transnacional dessa turma, propõe calar emissoras inteiras porque o criticam, reina um silêncio sepulcral. Nenhum grito de “censura”, nenhuma carreata com bandeiras, nenhuma live indignada.
Afinal, pelo visto, liberdade mesmo é só quando serve ao chefe. E assim a “terra das liberdades” vai se convertendo em palco de um espetáculo bastante conhecido por estas bandas: a velha e boa tentativa de transformar a crítica em crime, e o governante em censor.