O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou nesta sexta-feira (11) que a economia do Estado de São Paulo será uma das principais vítimas da tarifa extra de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A medida foi anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump, reeleito em 2025 para um segundo mandato, e afeta diretamente setores estratégicos como Embraer, siderurgia, suco de laranja, carnes e café. “A maior vítima dessas tarifas é a economia paulista”, declarou Alckmin, em entrevista à rádio CBN.
O vice-presidente criticou a tentativa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de se aproximar politicamente da Casa Branca. “O que ele fez foi colocar o boné do Trump”, afirmou Alckmin, ao comentar o encontro do governador com o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA, Gabriel Escobar. Para o vice, a sobretaxa é contraditória, já que os Estados Unidos mantêm superávit na balança comercial com o Brasil e, entre os dez principais produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano, oito são isentos de qualquer tarifa. Alckmin também informou que o governo Lula deve levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar as medidas e defender o livre comércio baseado em regras.
Enquanto isso, a conduta de Tarcísio de Freitas foi alvo de uma ofensiva judicial articulada por parlamentares da oposição. O Partido dos Trabalhadores (PT) protocolou petição no Supremo Tribunal Federal (STF) solicitando que o ministro Alexandre de Moraes apure a atuação do governador por suspeitas de obstrução de Justiça, abuso de autoridade e colaboração com organização criminosa transnacional. Segundo o documento, Tarcísio teria ligado diretamente a ministros do STF para interceder a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), réu por tentativa de golpe de Estado e atualmente impedido de deixar o país por decisão judicial.
O objetivo da suposta articulação seria permitir que Bolsonaro viajasse aos Estados Unidos para se encontrar com Donald Trump, numa tentativa de negociar a reversão da tarifa em troca de apoio político e, eventualmente, uma anistia para os crimes de que é acusado. “O gesto é grave: um chefe de Executivo estadual tentando liberar a saída de um réu investigado por tentativa de golpe, para que este se encontre com o líder da pressão internacional contra o Brasil”, afirma o PT. A legenda alega que, mesmo sem formalizar pedido oficial à Corte, o simples contato de Tarcísio com ministros já configura ingerência indevida no Judiciário.
Além da petição do PT, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) também acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR), acusando Tarcísio de favorecimento pessoal, tráfico de influência, corrupção passiva e improbidade administrativa. “É inacreditável a cara de pau do governador Tarcísio. Ele quer ajudar Bolsonaro a fugir e, para isso, se presta ao papel de office-boy do ex-presidente”, disse Boulos. O parlamentar ironizou ainda a proposta de Bolsonaro negociar o fim da tarifa com Trump, classificando-a como “o bandido se fazendo de mocinho”.
As revelações sobre a tentativa de interferência de Tarcísio geraram forte desconforto entre ministros do STF, especialmente após o governador compartilhar, em suas redes sociais, uma publicação de Trump em que o ex-presidente norte-americano denuncia uma suposta “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Na legenda, Tarcísio afirmou que o ex-presidente “deve ser julgado pelo povo brasileiro, nas eleições”, só que ele se fez de esquecido, Jair Bolsonaro perdeu as eleições de 2022 no exercício da presidência, utilizando a máquina pública — com isenções para caminhoneiros, auxílios eleitoreiros e operações da Polícia Rodoviária Federal em redutos lulistas — e mesmo assim foi derrotado. Não aceitou o resultado das urnas e figura como um dos mentores do ataque golpista de 8 de janeiro.
Para ao menos três ministros da Corte, a postura de Tarcísio, trata-se de uma adesão perigosa ao discurso de Trump, que critica abertamente o Judiciário brasileiro.
Reportagens (Ação de Tarcísio junto ao STF era para ajudar Bolsonaro a fugir) revelaram que o plano articulado por Tarcísio envolveria, inclusive, uma reunião entre Trump, Bolsonaro e os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, respectivamente, com vistas a discutir uma eventual anistia. O plano foi qualificado por integrantes da Corte como “esdrúxulo”.
A aproximação de Tarcísio com as narrativas bolsonaristas tem sido interpretada como uma estratégia eleitoral com vistas às eleições presidenciais de 2026. Em março, o governador já havia gerado controvérsia ao defender, em um ato pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro, a anistia aos réus do 8 de Janeiro, classificando-os como “inocentes que receberam penas desarrazoadas”. Para ministros como Alexandre de Moraes, os gestos do governador não apenas tensionam as instituições democráticas, mas representam tentativas deliberadas de deslegitimar o STF.
A petição assinada pelo PT destaca ainda que o filho de Bolsonaro — Eduardo — passou a reiterar publicamente a ameaça de sanções internacionais caso o Congresso não aprove a anistia aos golpistas. “Eles estão usando o povo brasileiro como escudo para proteger o pai da prisão”, afirmou Lindbergh, líder petista que peticionou a Justiça. “Agem como sequestradores que querem transformar a economia nacional em refém de uma causa antidemocrática.”
O documento também reforça o pedido de monitoramento eletrônico de Bolsonaro, protocolado desde 5 de junho e ainda sem decisão por parte da PGR. “O que está em curso é uma tentativa de escapar da Justiça brasileira com apoio de agentes internos e internacionais. O Supremo não pode se calar diante dessa afronta institucional e soberana”, conclui o texto entregue ao STF.