O que leva um governador de Estado a sugerir que um réu no Supremo Tribunal Federal, sem mandato nem qualquer função pública, seja autorizado a deixar o país para negociar com um presidente estrangeiro? Qual o cálculo — político ou institucional — capaz de justificar que alguém investigado por tentativa de golpe represente o Brasil em tratativas comerciais internacionais? E mais: o que move essa proposta quando a diplomacia é, por Constituição, tarefa do Executivo federal?
Essas são as perguntas que emergem após a revelação, feita pela Folha de S. Paulo, de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sugeriu a ministros do STF que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fosse autorizado a deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos. O objetivo seria negociar pessoalmente com o presidente Donald Trump a redução da tarifa de 50% imposta a produtos brasileiros. Segundo Tarcísio, Bolsonaro ainda manteria influência suficiente sobre o republicano norte-americano para conseguir uma trégua comercial que beneficiaria setores econômicos de São Paulo.
A proposta, no entanto, foi recebida com espanto e considerada “esdrúxula” por ministros do Supremo. Para a Corte, a iniciativa violaria tanto os princípios do Judiciário como os protocolos da diplomacia brasileira, cuja condução é exclusiva da Presidência da República e do Itamaraty. Bolsonaro, atualmente com o passaporte retido e proibido de deixar o país por decisão do ministro Alexandre de Moraes, é investigado por envolvimento direto na tentativa de golpe de Estado em 2022. A hipótese de fuga, com eventual pedido de asilo político nos EUA, foi apontada como um risco concreto — e inaceitável.
Ainda segundo a reportagem, a proposta de Tarcísio fazia parte de uma articulação mais ampla, que envolveria também o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O trio viajaria aos EUA junto com Bolsonaro, tentando não apenas obter um gesto diplomático de Trump, mas também costurar um acordo político no Congresso que viabilizasse uma anistia ao ex-presidente.
A reação da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, foi imediata. Nas redes sociais, ela classificou o plano como “surreal” e acusou o governador Tarcísio de tentar articular uma “fuga” para beneficiar Bolsonaro. “Fizeram a caca toda pensando na família Bolsonaro, e cada vez mais se afundam com as espertezas que elucubraram. Consertem o que fizeram, foi muito grave para o Brasil”, escreveu. Gleisi finalizou afirmando que o governo Lula continuará atuando na defesa dos interesses nacionais com “responsabilidade, determinação e destemor”.
A proposta foi rechaçada de forma unânime pelo STF, que viu na movimentação não apenas uma tentativa de subverter as instituições, mas também mais um esforço político para blindar Bolsonaro das investigações em curso. Para integrantes da Corte, o episódio expôs de forma cristalina os riscos permanentes de articulações antidemocráticas e o desprezo de certos setores por limites institucionais elementares.