A responsabilidade dos EUA na tragédia migratória da Venezuela

Dedico esse artigo aos idiotas que saúdam a invasão norte-americana como início de tempos felizes para a Venezuela (Luís Nassif)

Por Luis Nassif, jornalista, no GGN

A explosão da migração venezuelana tem um responsável claro e pouquíssimo mencionado: os Estados Unidos e o bloqueio econômico imposto ao país.

A crise começou um pouco antes do bloqueio, devido à queda mundial dos preços das commodities – movimento que também enfraqueceu politicamente o governo Dilma. Mas o pontapé final veio do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, assim como ocorreu com Cuba, alvo de um bloqueio fatal que impede qualquer sinal de recuperação econômica.

A política de Segurança Nacional norte-americana age assim: primeiro, trata de inviabilizar governos não alinhados com restrições econômicas. Essas restrições erodem a popularidade interna. O passo seguinte é turbinar o partido alinhado com os EUA ou, em caso mais drástico, preparar golpes de Estado e, em última instância, organizar a invasão bélica.

Aviso aos idiotas da polarização: ao apontar a ação deletéria dos EUA, não se está alardeando virtudes políticas do chavismo.

Vamos por partes.

Peça 1 – a crise bancária

Hugo Chávez assumiu o poder no bojo de uma crise bancária-econômica que derrubou o PIB da Venezuela em vários pontos percentuais. Estive no país na ocasião, preparando um documentário para a TV Bandeirantes. No poder, havia uma espécie de direita um pouco mais esclarecida.

O presidente da República era Rafael Caldeira. O ministro da Economia era Luiz Raul Matos Azócar, que parecia uma figura racional. Não foram capazes de enfrentar o poder político das famílias que dominavam o sistema bancário.

Hugo Chávez era um militar que se transformou na única voz de resistência ao governo. Na época em que estivemos por lá, os setores cultos do país – universidades, intelectuais – o tratavam como figura folclórica.

Peça 2 – o governo Chávez

No início do governo de Hugo Chávez (1999–2002), ele implementou um pacote de políticas tipicamente populistas, no sentido clássico do termo: liderança carismática, apelo direto ao povo, ruptura com elites tradicionais e uso intenso do Estado. Com discurso de refundação nacional e gasolina política do petróleo, Chávez acelerou na curva.

Hugo Chávez chega ao poder após uma crise econômica prolongada, descrédito total dos partidos tradicionais, aumento da pobreza e da desigualdade e os ecos do trauma social do Caracazo – uma explosão popular de descontentamento contra um plano econômico terrivelmente antissocial, que resultou na repressão e morte de mais de mil manifestantes.

Eleito, Chávez conquistou rapidamente popularidade a partir de um conjunto de medidas de cunho social.

1. Refundação institucional via plebiscito

Logo em 1999, Chávez convocou referendo popular, Assembleia Constituinte e instituiu uma nova Constituição Bolivariana. Passou a falar diretamente com o povo, fortalecendo o Executivo, ampliando os poderes presidenciais e definindo um novo desenho de Estado, sob liderança personalista.

2. Discurso anti-elite e anti-oligarquia

Chávez construiu um “nós contra eles” explícito, favorecido por uma contingência histórica: a Venezuela tinha a pior elite econômica de toda a América Latina. E essa opinião não vinha de um guerrilheiro, mas de Nelson Rockefeller, quando, a pedido, assumiu o comando da Standard Oil venezuelana.

Houve uma polarização moral, não apenas política, que mobilizou as bases populares.

3. Expansão imediata do gasto social

Antes mesmo das grandes “missões” (que viriam depois), houve aumento do gasto público, programas emergenciais em saúde e educação e maior presença do Estado em bairros pobres.

Tudo isso foi ancorado na renda do petróleo, com pouca preocupação inicial com sustentabilidade fiscal. Reside aí o primeiro grande erro: não se buscou industrializar o país nem garantir uma produção agrícola sustentável. Importavam-se até utensílios domésticos.

4. Controle político da PDVSA (o petróleo)

Aqui começou o modelo que, anos depois, serviria de inspiração para Olavo de Carvalho e Eduardo Bolsonaro, conforme expressaram diversas vezes no X: a cooptação dos militares e da população para que ficassem subordinados diretamente ao bolsonarismo, na forma de milícias. Em seus escritos, enalteciam o modelo venezuelano, apenas ressaltando que, no caso brasileiro, seriam milícias “do bem”.

A arma central foi a PDVSA, subordinada diretamente ao Executivo. Reduziu-se a autonomia técnica da empresa, que se tornou uma extensão do orçamento estatal.

5. Comunicação direta e permanente

Desde o começo, Chávez recorria a discursos longos em cadeia nacional, contato direto com a população e uso intensivo da retórica emocional. Enfim, uma liderança sem intermediários.

6. Militarização simbólica do governo

Ex-tenente-coronel, Chávez, assim como Bolsonaro, levou militares para cargos civis, resgatou símbolos das Forças Armadas e vinculou a revolução à ideia de “missão histórica”.

Peça 3 – erros internos

Esses fatores existiam antes do grande cerco internacional e já explicam boa parte da crise inicial.

O populismo estreito de Hugo Chávez provocou várias vulnerabilidades no país. Havia uma dependência extrema do petróleo, responsável por mais de 95% das exportações. Não foi criado nenhum fundo anticíclico; assim, quando o preço do barril caiu em 2014, não havia plano B.

Após a greve de 2002–2003, houve ampla politização da PDVSA, com demissões em massa de técnicos experientes, queda de investimentos, de manutenção e de governança.

Houve congelamento de preços, sistemas de múltiplos câmbios e gastos crescentes financiados por emissão monetária.

Mas isso, por si só, não explicaria o colapso absoluto observado depois.

Peça 4 – o boicote dos EUA

Todos os erros anteriores não explicam o colapso total registrado após 2017, que provocou uma crise humanitária ampla, de responsabilidade direta dos Estados Unidos.

Aqui entram os fatores que transformaram a crise em colapso humanitário e produtivo.

Sanções financeiras (2017)
A Venezuela foi proibida de emitir nova dívida, renegociar passivos e acessar crédito internacional. Bancos internacionais passaram a evitar qualquer operação por risco jurídico.

Mesmo importações de comida e remédios ficaram difíceis — não por proibição direta, mas por bloqueio operacional.

Sanções à PDVSA e ao petróleo (2019)
Houve bloqueio do principal canal de entrada de dólares, perda do mercado norte-americano e impossibilidade de importar diluentes, peças e tecnologia. Aqui ocorre o colapso acelerado da produção.

Congelamento de ativos externos
Reservas, ouro e contas foram bloqueados. Empresas estatais ficaram impedidas de operar globalmente. O Estado perdeu capacidade de resposta à crise social.

Efeito “overcompliance”
Empresas e bancos pararam de negociar além do exigido, por medo. A sanção formal virou bloqueio informal total. Esse efeito é pouco debatido, mas devastador.

Peça 5 – o êxodo venezuelano

A migração venezuelana apresentou a seguinte evolução anual (estimativas):

Antes da crise (2010–2013), a migração era baixa e estável, com menos de 200 mil venezuelanos fora do país, em geral estudantes e membros da classe média.

No início do colapso, em 2014, o número chegou a cerca de 700 mil, passando para 1 milhão em 2015, impulsionado pela queda do preço do petróleo e início do desabastecimento.

A explosão do êxodo ocorreu entre 2016 e 2017, quando os números saltaram de aproximadamente 1,6 milhão para 2,3 milhões, com inflação disparando, escassez generalizada e colapso dos serviços públicos.

A crise humanitária aberta, entre 2018 e 2019, levou o total a cerca de 3,4 milhões e depois 4,5 milhões de migrantes, marcados por fome, apagões e hiperinflação, com pico do fluxo para Colômbia, Peru e Brasil.

Durante a pandemia, entre 2020 e 2021, houve freio temporário, mas não reversão, com o número subindo de 5,1 para 5,9 milhões, apesar das fronteiras fechadas.

A partir de 2022 e 2023, houve nova aceleração, alcançando cerca de 7,1 e depois 7,7 milhões, devido à retomada da mobilidade e à persistente deterioração das condições internas.

Entre 2024 e 2025, estima-se que entre 7,7 e 7,9 milhões de venezuelanos estejam fora do país, configurando um dos maiores deslocamentos populacionais do mundo contemporâneo fora de um cenário de guerra formal.

Dedico este artigo aos idiotas que saúdam a invasão norte-americana como o início de tempos felizes para a Venezuela.