A reação de Valdeci Cavalcante ao fim da escala 6X1

Seu pronunciamento foi carregado de ódio, mentiras e ameaças

Por José Salan Barbosa Melo, Engenheiro, ex-presidente da Eletrobras Piauí

Sob o pretexto de atacar o projeto de Lei em tramitação no Congresso, que trata da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e da alteração da escala de 6x1 (6 dias de trabalho com 1 dia de folga) para a escala 5x2 (5 dias de trabalho com 2 dias de folga), o Sr. Valdecir Cavalcante, presidente da Federação do Comércio do Estado do Piauí, ataca duramente a proposta de redução da jornada e fulmina os programas sociais do Governo Federal.

Seu pronunciamento foi carregado de ódio, mentiras e ameaças, em mais uma demonstração da forma como pensa uma parte tacanha da elite brasileira, que até hoje anseia e sente saudades do regime escravagista que perdurou em nosso país por quase 400 anos. É a mesma elite que foi contra o estabelecimento do salário mínimo, de férias anuais remuneradas para o trabalhador, contra a implantação da CLT ou de qualquer outro benefício ou direito criado para o trabalhador brasileiro.

Seu pronunciamento é puro sumo de ódio de classe, preconceito e discriminação social.

É parte do discurso que estamos acostumados a ouvir: de que o pobre é vagabundo, que não gosta de trabalhar, que se agarra ao Bolsa Família e recusa ofertas de emprego, pois prefere viver de esmola do que de um trabalho digno.

Só que ele esqueceu de dar uma olhadinha rápida nas estatísticas do programa e veria que, no ano de 2025, mais de 2 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família no Brasil devido ao aumento da renda pela conquista de emprego formal.

Em seu discurso, o empresário — que nunca dependeu do Estado, que vive exclusivamente dos frutos de seu trabalho — faz uma radiografia socioeconômica do Estado do Piauí e mostra por “a+b” que “menos de 10% da população trabalham para manter os outros 90% que não produzem”.

Eu não sei o que ele chama de produzir, pois retirou de sua conta todos os servidores públicos dos três poderes, tanto das esferas federal, estadual como municipal. Além disso, não incluiu os trabalhadores sem carteira assinada, que atuam como autônomos, nem os trabalhadores rurais da agricultura familiar. Até os empresários, tanto os grandes como os médios e micro, também saíram da conta. Mesmo aqueles que ele quis representar em sua fala estão fora de sua matemática.

Somente o Governo do Estado do Piauí tem cerca de 80 mil servidores em atividade nas escolas, nos hospitais, na segurança pública, na assistência social, no corpo de bombeiros etc. Serviços essenciais e indispensáveis para a sociedade.

As prefeituras têm cerca de 50 mil servidores, muitos também em serviços essenciais como limpeza urbana, educação, saúde e assistência social. Podemos citar ainda os quase 10 mil servidores federais no Piauí, em serviços da Receita Federal, INSS, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. Nenhum desses servidores foi considerado produtivo pelo Sr. Cavalcante.

Provavelmente também seja daqueles que defendem o “Estado mínimo”, desde que seja para os pobres, porque, quando é para atender às demandas dos ricos, preferem um Estado máximo.

Há muito tempo, esses mesmos setores da elite que atacam os benefícios dos mais pobres qualificam os aposentados como “vagabundos”. Pela conta de Valdecir, é provável que ele tenha colocado todos os aposentados nessa prateleira, esquecendo que já deram sua contribuição à sociedade e ignorando que o Piauí possui mais de 670 mil beneficiários entre aposentados e pensionistas do INSS, segundo dados de abril de 2026.

Valdecir atacou duramente os programas sociais do Governo Federal, especificando um a um, a começar pelo Bolsa Família — alvo preferido daqueles que entendem que o povo não deve ter direitos e que o Estado existe para servir exclusivamente aos ricos e poderosos.

Se não existisse o Bolsa Família, haveria filas de desempregados na porta de sua empresa pedindo trabalho por um prato de comida, e não por um salário com carteira assinada. Muitas casas de elite estariam cheias de pessoas vindas do interior para trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, apenas em troca de alimentação e moradia, como ocorreu por muitos anos no estado.

Em seu discurso, atacou também o Benefício de Prestação Continuada, o Gás do Povo e o programa Pé de Meia. É surpreendente que alguém se oponha a um benefício de um salário mínimo mensal para idosos de baixa renda acima de 65 anos e para pessoas com deficiência.

É lamentável que ainda haja quem considere que pessoas nessas condições devam ser abandonadas e excluídas da sociedade.

O programa Pé de Meia foi criado para enfrentar um problema histórico: jovens de baixa renda que abandonavam o ensino médio para trabalhar e ajudar no sustento da família. O programa busca manter esses estudantes na escola, permitindo que concluam seus estudos e tenham melhores oportunidades no mercado de trabalho.

Para o Sr. Cavalcante, o Estado não deveria “gastar” com esse tipo de iniciativa para “quem não quer estudar”.

Todo esse ataque tem endereço e objetivo, pois dificilmente se trata de ignorância. Considerando o acesso às informações que ele possui, é razoável supor que há consciência sobre a composição social brasileira, o que levanta a hipótese de motivação ideológica ou má-fé.

Diante de um mundo de alta tecnologia, em que a produtividade aumentou significativamente — passando do trabalho braçal ao mecânico, e agora ao digital e robótico —, é razoável discutir que esses ganhos sejam compartilhados. Nesse contexto, a proposta de mais um dia de folga semanal aparece como uma tentativa de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e fortalecer a convivência familiar.

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