A Odisseia: a história de 3 mil anos que Christopher Nolan levou de volta ao centro do mundo

A grande ironia de A Odisseia: o homem que ajudou a decidir o destino de uma guerra não consegue controlar completamente o próprio destino

Há quase três mil anos, quando os versos atribuídos a Homero começaram a circular pelo mundo grego, uma pergunta que ainda inquieta a humanidade já estava colocada: somos realmente capazes de controlar nosso próprio destino?

A Odisseia, poema épico que atravessou os séculos e se tornou um dos pilares da cultura ocidental, oferece uma resposta tão simples quanto perturbadora.

O ser humano pode lutar, planejar, enganar inimigos, atravessar mares, enfrentar monstros e até desafiar os deuses. Pode demonstrar inteligência, coragem e perseverança extraordinárias.

Mas jamais controla completamente aquilo que acontecerá no instante seguinte.

É justamente essa história ancestral que Christopher Nolan levou novamente ao centro da cultura mundial com The Odyssey, superprodução estrelada por Matt Damon no papel de Odisseu.

Lançado mundialmente em 17 de julho, o filme transformou a epopeia de Homero novamente em fenômeno cultural e comercial, ultrapassando, neste início de agosto, a marca de US$ 1 bilhão em bilheteria mundial.

Nolan resumiu a dimensão da obra em uma frase:

“Não é uma história — é a história.”

E talvez seja exatamente isso.

Muito antes dos romances modernos, dos grandes filmes de aventura e das histórias sobre homens tentando encontrar o caminho de volta para casa, já existia Odisseu.

Odisseu venceu uma guerra. O problema era conseguir voltar para casa

A história começa, paradoxalmente, quando outra das grandes histórias da humanidade está terminando.

Depois de dez anos de Guerra de Troia, os gregos finalmente derrotam os troianos. Odisseu, rei da pequena ilha de Ítaca, está entre os grandes responsáveis pela vitória.

É dele a ideia do célebre Cavalo de Troia.

Os gregos simulam abandonar o campo de batalha e deixam diante das muralhas uma enorme estrutura de madeira. Os troianos levam o cavalo para dentro da cidade sem saber que guerreiros gregos estavam escondidos em seu interior.

Durante a noite, eles saem, abrem os portões e permitem a entrada do exército.

Troia cai.

Odisseu poderia imaginar que seu sofrimento havia terminado.

Na verdade, sua verdadeira provação estava apenas começando.

Uma viagem que deveria ser curta durou dez anos

O objetivo de Odisseu parece simples: voltar para Ítaca, reencontrar sua mulher, Penélope, e seu filho, Telêmaco.

Mas nada será simples.

A viagem de volta levará outros dez anos.

Somados aos dez anos da Guerra de Troia, serão aproximadamente vinte anos longe de casa.

E é justamente nesse enorme intervalo entre aquilo que Odisseu deseja e aquilo que efetivamente acontece que Homero constrói uma das maiores reflexões da literatura sobre a fragilidade humana diante do destino.

O Ciclope: quando a inteligência salva e o orgulho condena

Durante a viagem, Odisseu e seus homens chegam à terra dos Ciclopes e entram na caverna de Polifemo, gigantesco filho de Poseidon, deus dos mares.

Presos na caverna, os gregos precisam encontrar uma saída.

Odisseu recorre então à sua maior arma: não a força, mas a inteligência.

Quando Polifemo pergunta seu nome, Odisseu responde que se chama “Ninguém”. Depois, quando o Ciclope pede socorro, seus semelhantes perguntam quem o está atacando.

A resposta é perfeita:

“Ninguém.”

A astúcia salva Odisseu.

Mas seu orgulho quase o condena.

Depois de escapar, já protegido pela distância do mar, ele revela ao inimigo sua verdadeira identidade. Polifemo pede vingança ao pai, Poseidon, que passa a perseguir Odisseu.

Homero apresenta aqui uma das grandes contradições do personagem: a mesma inteligência capaz de salvá-lo convive com um orgulho capaz de colocá-lo novamente em perigo.

O homem vence uma batalha e imediatamente cria outra.

Circe, as sereias e a descoberta dos próprios limites

A viagem continua.

Odisseu encontra Circe, chega ao mundo dos mortos, procura o adivinho Tirésias e descobre que sua jornada não será apenas uma aventura geográfica.

Será também uma viagem para dentro da própria condição humana.

Um dos episódios mais conhecidos ocorre diante das sereias.

Seu canto é irresistível. Odisseu quer ouvi-lo, mas sabe que poderá perder o controle.

Por isso, ordena aos marinheiros que protejam os próprios ouvidos e manda que o amarrem ao mastro do navio.

Existe nessa passagem uma ideia surpreendentemente moderna:

Odisseu sabe que haverá um momento em que não poderá confiar nem mesmo em si próprio.

Para preservar a própria vida, ele decide antecipadamente limitar sua liberdade.

Cila e Caríbdis: quando não existe escolha perfeita

Em outro momento decisivo, Odisseu precisa atravessar um estreito dominado por dois perigos: Cila e Caríbdis.

Não existe caminho completamente seguro.

O herói precisa escolher entre perdas.

É nesse momento que Homero destrói uma ilusão que acompanha a humanidade até hoje: a ideia de que inteligência e coragem sempre serão suficientes para produzir uma solução perfeita.

Às vezes, todas as alternativas têm consequências.

Odisseu não escolhe simplesmente entre o certo e o errado.

Escolhe entre aquilo que pode perder e aquilo que não pode perder.

Talvez seja também por isso que A Odisseia permaneça tão atual.

Calipso oferece a imortalidade. Odisseu prefere voltar para casa

Depois de perder seus companheiros, Odisseu chega à ilha de Calipso.

A ninfa lhe oferece algo que qualquer mortal poderia considerar irresistível: permanecer ao seu lado e escapar da condição humana.

Mas Odisseu quer Ítaca.

Quer Penélope.

Quer sua casa.

Quer voltar a ser simplesmente homem.

Essa escolha contém um dos significados mais profundos da epopeia.

Odisseu não deseja transformar-se em deus.

Depois de enfrentar guerras, monstros e tempestades, sua grande batalha é recuperar aquilo que parece mais comum: sua própria vida.

Enquanto Odisseu luta no mar, Penélope resiste em Ítaca

A Odisseia, porém, não conta apenas a história daquele que partiu.

Conta também a história de quem ficou esperando.

Enquanto Odisseu atravessa mares e enfrenta monstros, Penélope trava sua própria batalha dentro do palácio de Ítaca.

Com o marido desaparecido durante anos, pretendentes pressionam para que ela escolha um novo marido.

Penélope resiste usando a inteligência.

Durante o dia, tece uma mortalha. À noite, desfaz secretamente aquilo que havia produzido.

Ela transforma o tempo em instrumento de resistência.

Telêmaco, por sua vez, cresceu praticamente sem conhecer o pai e inicia sua própria jornada em busca de notícias de Odisseu.

Por isso, A Odisseia não é apenas a história de um homem tentando voltar.

É também a história daqueles que continuaram esperando por ele.

O retorno a Ítaca depois de vinte anos

Quando finalmente chega a Ítaca, Odisseu não entra no palácio como um herói triunfante.

Ele retorna disfarçado.

Observa.

Procura descobrir quem permaneceu fiel.

E encontra uma verdade inevitável: o mundo continuou existindo enquanto ele estava fora.

O homem que retorna já não é exatamente aquele que partiu.

E a casa para a qual retorna também não é exatamente a mesma.

Depois do confronto com os pretendentes, resta ainda uma última prova: Penélope precisa ter certeza de que aquele homem é realmente seu marido.

O reconhecimento acontece por meio de um segredo conhecido apenas pelo casal: a história da cama matrimonial construída por Odisseu em torno do tronco de uma oliveira enraizada no chão.

A imagem dificilmente poderia ser mais poderosa.

Depois de atravessar mares, guerras, monstros, tempestades, tentações, deuses e até o mundo dos mortos, Odisseu retorna àquilo que permaneceu enraizado.

Matt Damon dá rosto ao herói de quase três mil anos

Christopher Nolan transformou essa epopeia em uma das maiores produções cinematográficas dos últimos anos.

Matt Damon interpreta Odisseu, enquanto Anne Hathaway vive Penélope e Tom Holland interpreta Telêmaco. O elenco reúne ainda nomes como Zendaya, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o e Charlize Theron.

A dimensão técnica também chama atenção.

A Odisseia tornou-se o primeiro longa-metragem filmado integralmente com câmeras IMAX, com filmagens realizadas em diferentes partes do mundo.

Nolan procurou dar dimensão física ao universo de Homero, recorrendo a grandes locações e efeitos práticos.

E o público respondeu.

Em apenas três semanas, o filme ultrapassou US$ 1 bilhão em bilheteria mundial.

Mas talvez o fenômeno mais interessante esteja acontecendo fora das salas de cinema: milhões de pessoas voltaram a procurar Homero.

No Reino Unido, as vendas de edições de A Odisseia cresceram cerca de 1.400% impulsionadas pelo filme. Nos Estados Unidos, também houve forte expansão da procura pelo poema.

Uma história transmitida há quase três mil anos voltou às listas de livros mais procurados.

A grande pergunta de A Odisseia continua atual

Por trás dos Ciclopes, feiticeiras, sereias, monstros marinhos e deuses existe uma história profundamente humana.

Odisseu é inteligente.

É guerreiro.

É rei.

É estrategista.

Foi capaz de conceber o estratagema que ajudou a derrubar Troia.

E, mesmo assim, não consegue determinar quanto tempo levará para chegar à própria casa.

Essa talvez seja a grande ironia de A Odisseia: o homem que ajudou a decidir o destino de uma guerra não consegue controlar completamente o próprio destino.

Uma tempestade pode surgir.

Um erro pode mudar o caminho.

Uma tentação pode alterar uma trajetória.

Uma decisão tomada em segundos pode produzir consequências durante anos.

Mas Homero não transforma Odisseu em uma figura passiva.

E é justamente aí que está a força da obra.

Não controlar o destino não significa desistir de agir.

Odisseu não controla o mar, mas controla a maneira como segura o leme.

Não controla Poseidon, mas pode continuar navegando.

Não controla o canto das sereias, mas pode mandar que o amarrem ao mastro.

Não pode eliminar todos os perigos, mas precisa escolher uma rota.

Não pode impedir o passar dos anos, mas pode continuar desejando Ítaca.

O ser humano não é todo-poderoso.

Mas também não é impotente.

Entre aquilo que desejamos e aquilo que o mundo permite existe o espaço da ação humana.

É nesse espaço que Odisseu vive.

E talvez seja justamente por isso que, quase três mil anos depois, a viagem de Odisseu continue sendo também a nossa.

Agora cercada por câmeras IMAX, efeitos monumentais e algumas das maiores estrelas de Hollywood, a pergunta de Homero permanece:

se ninguém controla completamente o próprio destino, o que nos resta?

A resposta de Odisseu atravessou quase três milênios: continuar navegando.