A humilhação imposta a Tarcísio de Freitas pelo filhos de Bolsonaro

A declaração pública de apoio a Flávio consolidou o enquadramento político promovido pelos Bolsonaro e simbolizou a perda de autonomia do governador no campo da direita

A humilhação imposta a Tarcísio de Freitas pelo clã Bolsonaro foi cuidadosamente articulada nos bastidores pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O movimento teve como objetivo enquadrar o governador paulista, que vinha sendo cortejado como alternativa ao presidente Lula, e forçá-lo a declarar fidelidade ao projeto político da família, em especial à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.

Segundo relatos, Flávio procurou Eduardo Bolsonaro para conter os ataques públicos a Tarcísio. Embora tenha atendido parcialmente ao pedido, Eduardo ironizou o irmão, chamando-o de “Centrão”, numa demonstração das tensões internas. A articulação ocorreu antes da viagem dos dois ao Oriente Médio, quando buscaram apoio político junto ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Na sequência, Flávio recorreu a Carlos Bolsonaro, responsável por coordenar a comunicação digital do grupo. Coube a ele conduzir os gestos de reaproximação com Tarcísio, em uma tentativa de selar a chamada “pacificação”. Carlos almoçou com o governador no Palácio dos Bandeirantes e passou a tutelar sua reaproximação com Bolsonaro, inclusive na visita à prisão da Papuda.

A ida de Tarcísio ao encontro do ex-presidente foi cercada de simbolismo. Acompanhado por Carlos, o governador concedeu entrevista na qual confirmou, de forma constrangida, seu apoio a Flávio. O episódio foi amplamente explorado por Eduardo nas redes sociais, que publicou trechos da declaração como prova de submissão política.

Nos bastidores, a visita havia sido planejada para ocorrer antes, mas foi adiada após declarações de Flávio indicando que o pai colocaria o aliado “em seu devido lugar”, pressionando-o a abandonar qualquer pretensão nacional. A liberação para a visita foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, uma semana antes do encontro.

A mudança de postura de Tarcísio ocorreu após meses de ataques promovidos pelos filhos de Bolsonaro, por meio do chamado “gabinete do ódio”. Sempre que o governador sinalizava aproximação com setores do centro político, do mercado financeiro ou da imprensa liberal, passava a ser alvo de críticas e campanhas digitais.

Em novembro, durante embate com aliados, Eduardo chegou a classificar Tarcísio como “candidato do sistema”, insinuando que ele representaria interesses contrários ao bolsonarismo. Em outras ocasiões, comparou o governador ao “Macaco Tião”, símbolo do voto de protesto nas eleições do Rio em 1988.

O último episódio de pressão ocorreu poucos dias antes da visita à prisão, quando Flávio afirmou, em entrevista, que a disputa presidencial seria entre Lula e ele próprio, deixando claro que Tarcísio não teria margem para contrariar o clã. Segundo o senador, o governador deveria se concentrar na reeleição em São Paulo e aceitar o papel secundário no projeto da família.

Diante da ofensiva coordenada e do isolamento progressivo, Tarcísio optou por ceder. A declaração pública de apoio a Flávio consolidou o enquadramento político promovido pelos Bolsonaro e simbolizou a perda de autonomia do governador no campo da direita, encerrando, ao menos por ora, sua tentativa de se afirmar como alternativa independente ao lulismo.