O psicólogo e mestrando da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, morreu na terça-feira (17), em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano. Ele chegou a ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu. A Polícia Civil registrou o caso como suicídio. O sepultamento ocorreu na quarta-feira (18), em Amargosa, sua cidade natal.
Horas antes de morrer, ele relatou nas redes sociais um episódio de racismo no Camarote Ondina, durante o Carnaval de Salvador. O espaço lamentou a morte e reafirmou compromisso com o respeito, a diversidade e o combate à discriminação.
A Ufba divulgou nota de pesar, destacando que Manoel havia sido aprovado no mestrado no fim de janeiro e comemorado a conquista nas redes sociais. Formado em Psicologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), ele também cursou pós-graduação em Saúde da Família pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e participou de programa de mobilidade internacional em Portugal.
Reconhecido pela atuação ética e pelo compromisso com a saúde mental e a luta antirracista, Manoel também recebeu homenagens do Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03).
Veja o relato que Manoel Rocha escreveu no instagram:
Eu amo o carnaval de Salvador, e esse ano foi muito especial! Foram seis dias de muita alegria e pertencimento. Mas, como diz a canção: “a felicidade do branco é plena, a felicidade do negro é QUASE”.
Ontem estávamos eu e meus amigos no Camarote Ondina (recomendo muito). Espaço confortável, música boa e energia de carnaval. Eu gastei um número considerável de tempo conhecendo os colaboradores, perguntando seus nomes, rindo com eles. Eu não acredito que eles estão ali para “servir” — são colaboradores que fazem a festa acontecer. Quando eu percebia um atrito vindo de pessoas negras, eu fazia questão de ir conversar, acalmar e dizer que a nossa felicidade — ao menos naquele dia — precisava ser plena. Acontece que, às vezes, um sonho é só um sonho.
Estava eu voltando do banheiro depois de pegar dois copos de bebida com Rafael, atendente educado, risonho e de um brilho nos olhos impressionante. No caminho — como esperado — muita gente e um tanto de aperto. Gentilmente, fui pedindo licença e passando por todos, desejando feliz carnaval. Até que um homem branco fechava a passagem — não posso dizer que o fez de propósito — até que eu perguntei: “irmão, posso passar?”. Então ele projeta o corpo dele ainda mais, impedindo a passagem do meu corpo. Toco nas suas costas e repito a pergunta: “posso passar?”. Ele vira, olha nos meus olhos e mantém sua postura.
Nessa hora me lembrei: sou um homem negro. Eles respeitam a minha agressividade e não a minha cordialidade. Forço a passagem e, olhando no rosto dele, digo furiosamente: “você vai me deixar passar? Quando eu pedi para passar, você deixa eu passar. Você não está me vendo? Ou eu vou ter que enfiar a mão na sua cara?”
E, como em um passe de mágica, eu consigo passar. Eles respeitam nossa raiva; todo o resto é desumanidade. Começo uma discussão. Outras pessoas brancas de boa-fé separaram e me acolheram.
Esse ser da espécie Homo sapiens — humano não o adjetiva bem — resolveu vir me pedir desculpas. Pelo quê? Pela humilhação de não poder transitar em um espaço pelo qual paguei para estar? Por olhar nos meus olhos e ignorar o meu pedido? Por convocar em mim a única coisa que, para esse tipo de pessoa, se torna reconhecível — a agressividade de um homem negro?
Caros racistas, não há desculpas para as feridas simbólicas que vocês causam por puro exercício de poder. Vocês não entendem: “é perspectiva”, “não foi bem assim”, “você não deveria reagir assim”. Vocês não se importam! Vocês não sentem e não querem sentir. Sabe o nome disso? PACTO NARCÍSICO DA BRANQUITUDE.
Meu único desejo naquele momento era usar toda a raiva e o estigma que pesam sobre os meus ombros para fazer a pele dele sentir — pela força das minhas mãos — o que o meu interior gemia.
No fim, acabou tudo bem. O segurança — que, na raiva, não perguntei o nome — foi muito gentil, conversou, teve um papo bacana e acolhedor.
Caros amigos pretos, não se enganem. Dinheiro, títulos, sucesso… isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho.
Existem exceções — e muitas. Branco não é uma categoria monolítica, e negros também não.
Mas ontem aprendi: NÃO ACEITO MAIS QUALQUER TIPO DE DESRESPEITO À MINHA HUMANIDADE!
O Carnaval foi lindo, foi mágico. Mas a felicidade do negro é QUASE.