O caso de Teresina é sui generis, talvez o único no Brasil que se tem notícia. Como é possível, em pleno regime democrático – ainda dito dessa forma –, o mesmo grupo político-partidário se manter no poder, ininterruptamente, por 35 anos, desde que as eleições diretas para prefeitos das capitais foram restabelecidas? No case teresinense, desconhecido no País, houve dois pequenos interstícios político-administrativos, quase formais, pois houve, basicamente, apenas uma mudança de siglas nas duas ocasiões.
O primeiro deles, durante a administração do então prefeito Heráclito Fortes, que era do PMDB e foi eleito com a indicação e o apoio decisivo de Wall Ferraz – sem o qual jamais teria chegado ao Palácio da Cidade –, no período de 1989 a 1992. Ocorre que a equipe de primeiro, segundo e terceiro escalões de Fortes era composta exatamente por quadros burocráticos de Wall Ferraz, que migrou do PMDB e ajudou a criar o PSDB, partido que tem a social-democracia no nome, mas de social-democrata nada ou quase nada tem. Com raras exceções.
Em terras mafrenses, como se dizia antigamente, os tucanos teresinenses transformaram o partido – e continuam mantendo-o assim – numa espécie de sigla de aluguel, um cartório, que, durante uma década, se aproveitou do prestígio do então governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Aliás, mesmo sendo da sigla do presidente FHC, o chamado “príncipe da sociologia brasileira”, durante oito anos de mandato presidencial, se desconhece qualquer obra ou benefício significante do governo federal na capital teresinense.
Ponte Wall Ferraz
Nenhuma sequer. A não ser a Ponte Wall Ferraz, inaugurada pessoalmente por FHC, mas construída com a parceria do então governador Francisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa, que teria viabilizado o investimento à construção do equipamento público, através de uma Antecipação de Receita Orçamentária (ARO). Em valores divulgados, a ponte custou R$ 5 milhões, à época. Fora a ponte, não se tem conhecimento, salvo engano – algum pequeno benefício aqui ou acolá – de nenhuma importante realização.
O que é isso, senão incompetência, visão obtusa e ultrapassada de gestão, falta de qualificação técnica ou inexistência de compromisso político com o desenvolvimento de Teresina? É difícil responder. É provável que seja uma combinação desses fatores e ainda outros, como, por exemplo, a azeitada máquina eleitoral da prefeitura, que tem se revelado praticamente imbatível, ao longo de três décadas e meia, por meio da cooptação de lideranças comunitárias espalhadas por toda a periferia da capital. Uma criação de Wall Ferraz.
O grupo que quer se perpetuar no poder enfrentou um segundo intervalo – este um pouco mais avesso à influência dos tucanos –, correspondendo ao período do mandato do então prefeito Elmano Férrer. Do PTB, agremiação tradicionalmente aliada, Férrer governou durante quase dois anos e 10 meses. Mas manteve, no geral, a mesma estrutura do grupo do prefeito Firmino Filho, que assim foi eleito para um terceiro mandato, em 2012. E pelo visto quer eleger como seu sucessor o atual secretário municipal de Educação, Kleber Montezuma.