O pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, desaparecido em Buenos Aires em março de 1976, teve sua identidade confirmada quase cinco décadas após o crime. Tenório Júnior, como era conhecido, foi sequestrado no dia 18 de março, às vésperas do golpe militar argentino, enquanto participava de uma turnê com Vinicius de Moraes e Toquinho.
Dois dias depois, um corpo com marcas de tiros foi encontrado em um terreno baldio em Don Torcuato, no partido de Tigre, e enterrado como indigente no cemitério municipal de Benavídez. A identificação só foi possível em agosto de 2025, graças ao cotejo de impressões digitais feito pelo Equipo Argentino de Antropología Forense (EAAF), que cruzou dados da Justiça de San Isidro com registros brasileiros.
Circunstâncias nebulosas
Na madrugada do desaparecimento, Tenório saiu do hotel Normandie, na Rua Rodríguez Peña, e nunca mais foi visto. Testemunhas supõem que ele poderia ter ido comprar cigarro, comida ou remédios, mas os detalhes permanecem incertos. Investigações posteriores sugerem que o músico foi levado para a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), um dos centros de tortura da ditadura, onde teria sido interrogado por forças argentinas e brasileiras antes de ser executado.
Reconhecimento oficial
A decisão que confirmou a identidade partiu da Câmara Federal da Argentina, composta por seis ministros, que delegaram ao EAAF a notificação à família e ao juiz Sebastián Casanello, responsável por processos ligados ao Plano Condor — a coordenação repressiva entre ditaduras do Cone Sul nas décadas de 1970 e 1980. A Procuraduría de Crímenes Contra la Humanidad, a Prefectura Naval Argentina e a CEMDP (Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, do Brasil) também participaram das investigações.
Apesar do avanço, ainda não está confirmada a possibilidade de exumação no cemitério de Benavídez para coleta de material genético.
Legado interrompido
Nascido no Rio de Janeiro em 1940, Tenório Júnior iniciou a carreira aos 15 anos e se consolidou como um dos pianistas mais respeitados de sua geração. Casado com Carmen, era pai de quatro filhos e aguardava o nascimento do quinto quando foi morto.
Além de acompanhar Vinicius de Moraes e Toquinho, Tenório deixou um legado próprio na música brasileira, sendo presença marcante em festivais e turnês internacionais. Sua trajetória, brutalmente interrompida pelo terrorismo de Estado, é agora oficialmente reconhecida como mais um capítulo das violações de direitos humanos cometidas no período ditatorial da América do Sul.