Eu e o jornalista e poeta Odorico Carvalho estamos compartilhando uma fase de colaboração aqui no pensarpiaui. Eu, como editor. Ele, como colaborador.

Odorico iniciou com um texto sobre as universidades brasileiras. Depois conversando comigo indagou se poderia enviar textos “menos jornalísticos”, mais para crônicas. Eu o deixei à vontade para a escrita e fiquei na expectativa do que estaria por vir.

Expectativa mais que contemplada. Odorico escreveu sobre a “igrejinha” da Bocaina – minha terra natal. Além de ser de lá, sou nascido no dia da padroeira, 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. Será que Odorico Carvalho mexeu com a sensibilidade do editor?

A beleza da simplicidade

Por Odorico Carvalho

Quem vê essa igrejinha tão humilde, despida de ornamentos, sem vitrôs caros, pode até achá-la feia, sem graça. É que nossos olhos são treinados para ver apenas a estrutura física tridimensional e, por isso, são incapazes de perceber o que vai além de formas e cores. Para entendermos o que ela é, o que representa, precisamos observá-la com os olhos da alma, através da janela do tempo e dos sentimentos.

Foi para entrar nessa igrejinha que eu ganhei e calcei meu primeiro par de sapatos. Tinha uns oito anos. Para que servisse no ano seguinte, o calçado veio bem maior que meus pés. Tivemos que fazer um recheio de algodão para ajustar um pouco o comprimento dos bicos e, mesmo assim, os dedos chacoalhavam de um lado pro outro. Mas que alegria, que emoção ver aquela coisa linda, brilhando. E o som deles no calçamento (toc, toc, toc), soava-me como música. Na maior pabulagem, acho que cheguei à igreja sem ver ninguém, os olhos presos nos sapatos por todo o percurso. Na minha cabeça de criança, a cidade inteira estava ligada nos meus sapatos.

Nesta igreja choramos a morte de irmãos ainda anjos, tios e avós. Mas foi neste lugar que celebramos coisas esplendorosas, como o nascimento de novos cristãos, o batizado de meus irmãos. E como me lembro dos hinos entoados por vozes quase celestiais, ano após ano, reavivando a fé e disseminando a alegria dos que realmente creem.

Das lembranças mais antigas, e que ainda trago por décadas a fio, está a realização das Santas Missões. Durante vários dias, cerca de 20 padres e alguns bispos sob o comando de Dom Edilberto Dinkelborg, bispo de Oeiras, revezavam-se em pregações memoráveis para uma praça cada vez mais lotada. As pessoas surgiam de todos os lados, dos povoados, das cidades vizinhas. Traziam seus catecismos, garrafinhas de água para serem benzidas e os ouvidos bem abertos. Embora ainda entendêssemos pouco do que se passava, meus pais faziam questão de nos trazer todas as noites.

No último dia, Dom Edilberto subiu ao altar montado na frente da Igreja. Num tom grave, contrito, ele começou: – Meus irmãos! Estamos chegando ao fim dessa jornada de fé e esperança. Todos nós sairemos daqui hoje modificados e melhorados pelo poder de Deus. Muitos de nós ainda viverão muitos anos, outros talvez não. Amanhã mesmo alguém pode não ver a luz do dia e seja chamado à presença do Senhor. Por isso, agora, vamos nos despedir de todos e de cada um. Despeça-se do seu filho, da sua esposa, do seu amigo. Abrace-os como se fosse a última vez. Peça perdão por suas falhas, perdoe-os por seus pecados, diga que os ama, pois uma coisa é certa: daqui a 100 anos nenhum de nós nesta praça estará vivo, mas podemos não ter mais um minuto para fazer o bem.

E as pessoas começaram a se entreolhar, ainda tímidas, enquanto no altar os religiosos se abraçavam longamente. Alguém do povo estendeu a mão para o vizinho e de forma sôfrega o puxou para um abraço. De repente, a praça inteira se comprimia em abraços e se podia ouvir o murmúrio de choros e lágrimas, rostos molhados brilhavam crispados por uma emoção jamais vista. Abraçado por meus país, eu pensei, com pavor, em como seria viver sem eles e chorei copiosamente.

Então, não me venham agora dizer que essa igrejinha é feia. Eu a vejo como uma gigantesca catedral, toda ornada por guirlandas e luzes, com suas torres majestosas tocando o céu. Aí estão guardados dois séculos de história, dores, sofrimento, ao lado da esperança que sempre renasce. E se quiser ver é só abrir os olhos. Da alma.

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