Por Arnaldo Eugênio, doutor em Antropologia

Sociologicamente, no Brasil, as últimas manifestações populares de rua, no início do governo de Jair Bolsonaro (PSL-RJ) têm servido para revelar as incongruências políticas que perpassam a nossa consciência coletiva de nação, gerando, de ambos os lados, análises “otimistas” e “pessimistas” quanto aos objetivos almejados e os resultados alcançados pelos manifestantes e as molduras simbólicas dos seus gestos. Desse modo, dificultamos a construção de uma sociedade justa e integrada.
Dentro de um contexto de acirramento de ânimos, intolerâncias, verborragias, fake news e disputas por hegemonia política, no fundo, nem o Brasil nem o povo estão acima de tudo e todos. Pois, existem aqueles, entre os “vermelhos” e os “verdes-amarelos”, que rugem apenas para assegurar privilégios e pilhar o erário – o conjunto de bens, direitos ou valores pertencentes ao Estado. Ou seja, de ambos os lados, existe aqueles que usam de uma prática distinta de abastardar o bem público.
Politicamente, as manifestações pró-Bolsonaro dos “camisa verde-amarelo”, no dia 26/05, cumpriram exatamente o propósito almejado pelos os seus organizadores, onde “Bolsonaro ganhou”. Ou seja, os “bolsominions” – expressão pejorativa para designar pessoas politicamente alinhadas com os ideais de Jair Bolsonaro – qualificaram, ao seu modo de ver, como um “um espetáculo da democracia”, mesmo que pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.
Assim como, as manifestações contra-Bolsonaro realizadas pelo eleitorado do “centrão” e os “camisas vermelhas”, no dia 15/05, foram exitosas, onde “Bolsonaro perdeu”. Ou seja, na ótica dos “esquerdopatas” – expressão pejorativa para o defensor obstinado da esquerda política no Brasil – as suas reivindicações eram mais legítimas e democráticas por um país para todos e todas. E, simultaneamente, pulverizados entre ambos os lados, à esquerda e à direita do espectro político, estão os “idiotas inúteis” e os “inúteis idiotas” – os professores e estudantes universitários vistos politicamente como alienados e utilizados como massa de manobra político-partidária.
Numericamente, as manifestações dos “bolsominions” não foram gigantes como as dos “idiotas inúteis”, contra os cortes de verbas na educação. Todavia, os milhares de “bolsominions” que foram às ruas (em 15 estados e no Distrito Federal), mostraram que o presidente ainda tem uma expressiva base de apoio, mesmo com a queda na sua popularidade e a falta de articulação política do seu governo com os arrefecidos Poderes Legislativo e Judiciário.
Na perspectiva política, a disputa pela hegemonia no país, através das manifestações pelas ruas do Brasil, de ambos os lados, mesmo considerando as especificidades, não foram em vão nem inexpressivas. E, dentre outros aspectos, revelou algo de comum entre os “camisa verde-amarela” e os “camisa vermelha”: o caráter de nacionalismo de ocasião. Isto é, de um lado e de outro, existe aqueles que se apoiam em ranços corporativistas, privilégios e gestos passionais recorrentes, à esquerda e à direita, conforme a necessidade de poder. Aqueles que entoam o hino nacional da boca para fora e põem a mão no peito esquerdo como um sinal de um falso amor à pátria.
Existe, no Brasil, um contexto xenófobo, perigoso e violento, mas evitável, que é estimulado por discursos de ódio e de intolerância, que festejam arbitrariedades, truculências, prisões políticas e armas de fogo com retóricas cheias de sofismas e luta de narrativas opostas, visando o poder político.

 

Nota: as informações e opiniões refletem o pensamento do autor, não necessariamente do pensarpiaui  

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