Por Odorico Carvalho, jornalista

O trem parte célere rumo a lugar nenhum. O ser, em sua insustentável leveza (como diria Milan Kundera), flutua pelas estações, afunda em lamaçais tenebrosos, emerge glorioso, brilha. Carma? Destino? Sorte? Azar? A que porto haveremos de ser conduzidos?

A viagem segue. Em nosso planeta a natureza se modifica: líquido, gás, sólido. Em sua incansável tarefa de criar, ela destrói, refaz. E a mesma gota d’água que hoje nós bebemos já foi árvore, verme, pedra, gente. E continua sendo e não sendo. Viva, morta. A eterna indagação que nos assola o espírito: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Carregamos conosco, em profunda solidão, a certeza da nossa morte. Nascemos condenados. E, mesmo assim, rimos, choramos, colocamos filhos no mundo, vivemos como se houvesse um amanhã. Sonhamos com um futuro que nunca virá, simplesmente porque não há futuro.

Em algumas estações somos felizes. Encontramos pessoas com quem nos identificamos. Somos a mesma matéria. Um já foi o outro. Construímos castelos, emolduramos nossa inteligência, ligamos as antenas na consciência comum, buscamos beber na fonte da sabedoria.

Noutras paradas, o lado negro. A dor em sua insaciável sede de vingança, o clamor dos desesperados. O ser humano levado aos extremos da provação e, mesmo assim, resiste, luta como se percebesse algum propósito, algum designo divino em tudo isso. Uma luz a indicar o caminho reto, a rota perfeita, um porto seguro.

E, então, o trem reduz sua marcha. As luzes piscam cada vez mais fracas. Alguns terão que ficar na próxima estação: sós, separados, tristes. Transformados em pó. O zero absoluto? Não! Formarão a matéria em que se moldarão novos passageiros. Os que seguem a viagem carregam, na alma, as marcas dos que ficaram, a saudade sem fim, uma impaciência com o caminho longo, a esperança numa Estação da Luz, brilhante, cheia, todos os rostos conhecidos e queridos ali presentes, abraços de alegria.

E enquanto o trem acelera, lá vamos nós mais uma vez. As costas doendo de tanta estrada, os cabelos brancos empoeirados, a vista cansada de tanto ver. E quando o Condutor nos diz “FIM DA LINHA”, descemos quietos, conformados, despojados de tudo que nos foi caro, alheios às futilidades, vencidos, inertes. Afinal, somos todos passageiros.

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