Por Wilson Gomes, na Revista Cult

Estamos em plena guerra. Uma guerra de valores, mentalidades e costumes. Uma guerra cultural. Pelo menos segundo a fantasia que o bolsonarismo comprou de um astrólogo chamado Olavo, um ancião de modos esquisitos e desagradáveis que comprou sem qualquer investimento intelectual todos os delírios dos ultraconservadores americanos e os revende aqui no Brasil há quase uma década, pelo YouTube e pelo Twitter, depois de os empacotar como grande filosofia ou como revelação profética. No lado errado desta guerra, o lado que a estava vencendo, estavam os liberais nos costumes ou nas controvérsias morais e a esquerda nas políticas públicas. O lado certo, que, enfim, agora tem a sua oportunidade de revanche, era ocupado pelos ultraconservadores de direita, uma amálgama de reacionarismo moral, teocracia, autoritarismo e conservadorismo.

Enfim, o governo Bolsonaro mostra a suas feições. O bolsonarismo chegou ao governo habilmente surfando a tsunami antipetista, mas depois da eleição vem a gestão e é claro que o medo do PT e o ódio ao PT não seriam suficientes para se fazer um governo. Basicamente, o que Bolsonaro fez até agora foi terceirizar 2/3 do seu governo e formar um estranho triunvirato. Há em primeiro lugar o governo Guedes, formado para dar conta da agenda antiestatista que a “classe produtora” exige que que seja implantada com urgência. Bolsonaro sabe que precisará do apoio dos donos do dinheiro, dos setores produtivos e do capital financeiro. E desde 2003 essa gente sonha com o retorno de uma agenda antiestatista: controle estrito do gasto público, diminuição do número de funcionários públicos, redução dos serviços prestados pelo Estado, diminuição da carga tributária, controle de salários no setor público, privatizações, e corte ou redução das políticas sociais. Voltamos às prioridades dos anos 1990 e à ideia de que o Estado é o inimigo da economia, o que é um ciclo muito conhecido mundialmente: nas crises econômicas, os eleitores preferem governos de direita, para depois descartá-los com urgência quando a economia se recupera.

De outro lado, teremos o governo Moro, para implantar a prometida agenda “lei e ordem”. Se o governo Guedes é banal e previsível, pois é basicamente um FHC III, baseado em austeridade e privatizações, o governo Moro será uma novidade. O tripé – combate ao crime organizado, combate à corrupção público-privado, combate ao crime de rua – não é um combo muito comum na política nacional nem jamais foi erigido ao status de superministério. De forma que é razoável esperar que Moro consiga lidar com o crime de colarinho branco, sua especialidade, mas que dificilmente encontrará uma fórmula policialmente eficiente e juridicamente adequada para diminuir as taxas de homicídios. E se não caírem as taxas de homicídio, que é o índice de leitura mais imediata pela opinião pública, grande parte da esperada magia bolsonarista se dissipará rapidamente.

Bolsonaro terceirizou a maior parte da sua administração por uma razão muito simples: não tem o menor interesse ou a menor competência nos assuntos em tela. O neoliberalismo em Bolsonaro é só mais um dos seus oportunismos. Por formação e mentalidade, Bolsonaro é um estatista. Foi o seu antipetismo que o empurrou para o neoliberalismo radical, por um cálculo que se provou eleitoralmente verdadeiro: se os petistas odeiam o neoliberalismo e os neoliberais odeiam o petismo, nada mais esperto do que se juntar aos inimigos do seu inimigo, ainda mais se estes têm sido derrotados consecutivamente desde 2002 e não têm a menor chance de ganharem a eleição de 2018 com uma candidatura própria.

Além disso, Bolsonaro fala muito sobre segurança pública, crime urbano, corrupção, autoridade, bandidagem e repressão, mas, na verdade, não têm a menor ideia de como entregar tantas e tão grandes promessas aos que se convenceram de que ele trará, enfim, um país sem corrupção ou crime de rua. Bom de bravatas e de exageros retóricos, Bolsonaro nunca passou disso. Melhor passar adiante o abacaxi, com um segundo Posto Ipiranga, o de Moro, e passar a cuidar do que o presidente eleito realmente gosta.

E de que ele gosta? A resposta é simples: o que Bolsonaro andou fazendo nos últimos quase 30 anos? Não exerceu funções executivas e foi um legislador inepto. São 30 anos de discursos, de bravatas, de batalhas verbais em defesa da falecida ditadura, contra o extinto comunismo e por um moralismo de tia velha. Assim, tendo terceirizado 2/3 da sua administração, sobra para Bolsonaro cuidar da agenda do núcleo duro do bolsonarismo, que o elegeu para que enfrentasse e vencesse a tal guerra cultural, contra posições liberais, iluministas, humanistas e, enfim, de esquerda. Transferidas aos governos Guedes e Moro as pautas substantivas, sobraram para Jair Bolsonaro e filhos as pautas de maluco de direta desocupado: extraditar Battisti, mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém, chamar FHC de comunista, provocar a China, prometer invadir a Venezuela se Trump pedir, passar dias discutindo a qualidade moral de perguntas do Enem e coisas como essas.

Para isso, há pressa. Nem precisou começar a governar para cumprir uma promessa de longa data, recentemente reaparecida na campanha: tirar os médicos cubanos do Brasil. Desde 2013 a direita brasileira fez do programa Mais Médicos um cavalo de batalha. Como se sabe, trata-se de um programa do primeiro governo de Dilma Rousseff, que visava a levar médicos para municípios e distritos brasileiros absolutamente sem assistência básica de saúde. O programa consistia em um edital com prioridade para médicos brasileiros, que teve inscrições em volume insignificante. Como prioridade secundária, construiu-se a possibilidade de aceitar inscrições de médicos estrangeiros, a começar pelo emprego de médicos cubanos, em contrato celebrado diretamente com o governo de Cuba, em um modelo usado por dezenas de outros países.

A Revolta dos Jalecos Brancos foi das primeiras manifestações organizadas pelas classes médias contra o governo de Dilma Rousseff. Defendia-se, paradoxalmente, uma reserva de mercado profissional para médicos brasileiros quando, na verdade, os cubanos viriam para onde os doutores brasileiros explicitamente não quiseram ir. Vem desta época o antipetismo dos médicos, um dos principais afluentes do bolsonarismo nesta eleição.

Na chegada dos primeiros médicos cubanos ao Brasil, pelotões foram mobilizados para irem aos aeroportos e formarem corredores poloneses de insultos. Foi quando se deu o célebre comentário de uma jornalista de Natal, em um desses comitês de “recepção”, que expressava o seu ceticismo quanto à formação daquela gente negra e mulata publicando que as médicas cubanas tinham “cara de empregadas domésticas”. Nesta mesma época, em 11 de setembro de 2013, em entrevista dada ao programa Palavra Aberta, da Rádio e TV Câmara, o então deputado pelo PP-RJ, Jair Bolsonaro, corrigiu a jornalista potiguar: “Eu acho que eles têm cara, sim, infelizmente, é de cortadores de cana. Que [é o que] eles são”.

As acusações variaram ao longo do tempo, mas a ideia de que o PT estava usando a presença dos cubanos no programa Mais Médicos para “financiar a ditatura cubana” permaneceu, assim como perdurou a suspeita de que os cubanos estavam aqui, na verdade, era para instilar o comunismo no sistema linfático brasileiro. De fato, reiteradamente aparecia a ideia de que os cubanos estavam “infiltrados” no Mais Médicos. Outros, como Bolsonaro, sustentaram desde 2013 a convicção de que na comunista Cuba não se poderia aprender Medicina. Afinal, a ideia de haver médicos cubanos era inaceitável uma vez que não combinava com as convicções de Bolsonaro e do bolsonarismo sobre países comunistas. Não pode haver ciência e inteligência no comunismo, claro.

Recentemente, em entrevista a Mariana Godoy, Bolsonaro repetiu o seu mantra desde 2013: “Ninguém tem qualquer comprovação de que esse pessoal tem qualquer conhecimento de Medicina”, disse. E reiterou: “Os cubanos que estão aqui, ninguém sabe realmente o que eles são”. E rematou, no mais puro estilo preconceito & ignorância do bolsonarismo raiz: “Eu duvido, Mariana, que você queira ser atendida por um cubano desses fantasiado de médico aqui dentro”. Um momento constrangedor.

E em agosto de 2018, no aeroporto de Presidente Prudente, já em plena campanha presidencial, Bolsonaro juntou todos os pontos para incluir os médicos cubanos na sua guerra cultural: “Nós juntos temos como fazer o Brasil melhor para todos e não para grupelhos que se apoderaram do poder e [há] mais de 20 anos nos assaltam e cada vez mais tendo levado para um caminho que nós não queremos. Vamos botar um ponto final do Foro de São Paulo. Vamos expulsar com o Revalida os cubanos do Brasil”. Há mais conexão entre os Templários Comunistas do Foro de S. Paulo e a presença de médicos cubanos em Ponta Grossa do que imagina a nossa cética Filosofia. Só não vê quem não quer. Mas Jair Messias sabe das coisas e não se deixa enganar.

Não importa se, em novembro do ano passado, instado por ações que questionavam pontos do Mais Médicos, o Supremo Tribunal Federal tenha validado o programa e autorizado a dispensa da validação de diploma de estrangeiros. A promessa explícita foi de usar o exame de revalidação de diploma estrangeira, ou qualquer outra desculpa, para “expulsar os cubanos do Brasil”.

Pois “expulsos” estão! Mas não pegava bem dizer isso, vez que nem todo brasileiro compra o delírio da guerra cultural contra o comunismo internacional. E dá-lhe bolsonarista, uma semana depois do anúncio (depois desdito) da extinção do Ministério do Trabalho, usar argumentos trabalhistas para justificar as exigências de Bolsonaro apresentadas a Cuba justamente para serem rejeitadas. E dá-lhe bolsonarista falando de horror a trabalho escravo e da desumanidade de famílias separadas, enquanto dois meses atrás o seu general de campo, na guerra cultural, falava despudoramente de expulsão.

O governo Guedes vai enfrentar a crise econômica, o governo Moro se confrontará ao crime, enquanto o governo Bolsonaro, por sua vez, vai fazer a guerra cultural contra o monstro imaginário do comunismo internacional. Os generais Guedes e Moro serão forçados ao pragmatismo e ao compromisso, priorizando o bem do país, mas é porque as suas agendas não têm a mesma urgência e importância da luta enfrentada pelo general Bolsonaro, que consiste em debelar um inimigo poderoso, cheio de truques e manhas, definitivamente insidioso que é o comunismo. Ainda mais o comunismo internacional. Afinal, não se pode ser pragmático ante princípios.

E foi assim que, em um único movimento, o bolsonarismo privou pelo menos 24 milhões de brasileiros, que vivem nas áreas onde os cubanos trabalham e os médicos brasileiros não querem ir, de assistência médica básica. Melhor nenhum médico do que um médico comunista com cara de cortador de cana, não é mesmo? Quem mora nos grotões do interior deste Brasil imenso, tendo votado ou não em Bolsonaro, terá agora que se consolar com o bordão mor do bolsonarismo cultural: Quer médico? Vá pra Cuba.

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