ORIGINALMENTE POSTADA EM 13/12/2010, QUANDO O AUTOR ESCREVIA PARA O  ACESSEPIAUI.COM

Para falar dele, preciso falar de mim. Espero não lhe aborrecer. Nasci em 1962, quando ele cantava De Teresina a São Luiz. Aos quatro anos de idade precisei morar em São Paulo. Não fui de trem como quem ia para a capital do Maranhão. Mas foi também uma viagem mambembe, como todas naqueles idos. Como dizia Mão Santa, atentai bem! Eu disse, precisei ir. A ida para São Paulo, não foi voluntária, foi impositiva.

Hoje, adulto, quando leio noticias de que alguém precisa se adaptar à uma nova terra, compreendo bem o que é isso. Tive que me adaptar a São Paulo e o fiz com o auxílio de Luiz Gonzaga.

Não é fácil, você criança, no meu caso; ou adulto, noutros, ser arrancado do torrão natal e dos braços dos pais, para viver em lugar diferente. Por isso, a retirada de Triste Partida, o conselho do Respeita Januário, e a probabilidade do retorno da Volta da Asa Branca, soam tão comum em meus ouvidos.

São Paulo é frio, grande, indiferente. Além dos parentes – amigos da colônia piauiense e nordestina que acabam se tornando também parentes – se contava com a voz forte, os acordes musicais e os enredos das letras do grande Luiz Gonzaga, para poder viver em São Paulo, com as saudades da terra natal.

A maneira mais fácil do nordestino paulista matar suas saudades era ouvir Luiz Gonzaga. Nas chuvosas madrugadas e manhãs paulistanas, o rádio daquela terra oferecia esta possibilidade. Alguns programas eram eminentemente nordestinos, outros sincretizavam a cultura do Nordeste com a do caipira paulista, tendo em Zé Bétio, da Rádio Record, seu maior expoente.

Durante muitos anos, a Rádio Bandeirantes de São Paulo, apresentou no período vespertino o programa “Nas quebradas do Sertão”, dos irmãos radialistas, Luiz e Expedito Amorim, nele a presença de Luiz Gonzaga era cativa e como uma excelência.

Os nordestinos mais abastados podiam comprar uma radiola e os LPs do Rei. O faziam muito provavelmente, na Estação da Luz, ou no bairro do Brás, onde paravam os ônibus que vinham do Nordeste, antes do terminal do Tiete ser inaugurado.

Fui criança em São Paulo e recebi as influências daquela terra. Algo quase que obrigado aos jovens daquele tempo era estudar inglês num cursinho particular. Sendo rico, ia para a Fisk – mania do momento. Como riqueza não era (nem é) o meu forte, fui para um cursinho de vila. Não era Fisk, mas era cursinho de inglês. Para mostrar serviço à professora passei para o inglês diversas músicas de Luiz Gonzaga e exibi em sala de aula. Coisas da juventude.

Pulando rápido no tempo, alguns anos atrás, meu filho Tarcísio me pede uma sanfona de presente. Pense num pai besta. Zé Pinguelo resolveu a situação, comprei um acordeon seu e dei ao Tarcísio. Ele foi lá e veio cá e concluiu aquilo que eu já sabia: o sangue dos Barros, que na realidade são Clementino não correm em veias artísticas. De qualquer forma fica o orgulho de ver o Tarcísio, na plenitude de sua juventude, ser mais um gonzagueano.

Voltando no tempo. Meus irmãos Gilberto e Raimundo tiveram comércio na rua Silva Bueno, no bairro Ipiranga, em São Paulo. Vizinho a eles ficava o grande salão de danças Asa Branca, do alagoano Zé Lagoa. No Asa Branca, Luiz Gonzaga se apresentava com frequência, mas nunca tive a oportunidade de vê-lo lá. A primeira vez que vi Luiz Gonzaga foi no show “Vida de Viajante”, com o filho Gonzaguinha, no Anhembi, em São Paulo.

Como morava em São Bernardo do Campo, distante do local do show e com dificuldades de locomoção, não foi fácil chegar ao Anhembi. Mas o sacrifício valeu a pena. Na companhia do sobrinho Raimundo Neto, e, do amigo, que mais tarde seria cunhado, Gregório, chegamos ao Anhembi para ver o Gonzagão. Casa grande, ficamos num local distante do palco. A visão que tínhamos, nos mostrava artistas longe, pequenos, mas o coração batia forte como se Luiz Gonzaga estivesse ali ao lado. Não era natal, mas aquela foi… uma noite feliz.

A segunda vez que vi Luiz Gonzaga foi aqui em Teresina, na, agora inexistente, Classes Produtoras. Hoje em dia, quando vou naquela loja de compras que se instalou no terreno das Classes lembro do show de Luiz Gonzaga. Se tivesse condições teria tombado o lugar. Onde se viveu arte e cultura não se pode fazer templo de consumo.

No show das Classes alem de ver e ouvir Luiz Gonzaga, tive a oportunidade de falar com o Rei. Foi rápido, mas para mim, intenso. Entrei em seu camarim… ele sentado, suado, iniciava o descanso depois do trabalho. Disse a ele o que tenho dito aqui. Da importância dele para afagar as dores dos corações nordestinos afastados do seu torrão natal. E dei meu muito obrigado ao Rei do Baião.

O provocador e dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Errou. Luiz Gonzaga é uma exceção, é uma unanimidade e isto não é burrice.

Hoje no aniversário de seu nascimento centenas de gonzagueanos lhe prestam homenagem. É o que faço.

Luiz Gonzaga foi o mais autêntico de todos nós, nascidos no Nordeste. Assumiu sua região, não se envergonhou e divulgou os encantos nordestinos, suas cores, seus sabores, modas, costumes, problemas. Foi e continua sendo o Porta Voz oficial da região. Quem lhe outorga isso é o povo. O povo rico e o povo pobre.

Luiz Gonzaga se foi em 1989. Depois de uma rica passagem pela terra, o Rei do Baião faz samba no altar de cima e, com certeza, a cabrueira de lá está arrastando a chinela numa sala do céu sem reboco.

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