Por Luis Felipe Miguel, no O blog Demodê em 12 de junho de 2015

No Congresso Nacional, deputados interrompem uma sessão da Câmara para, sob o olhar benevolente do presidente da Casa, recitarem uma reza em protesto contra gays e feministas. Um representante do Distrito Federal, Rogério Rosso (PDT), apresentou projeto tornando “crime hediondo” a profanação de símbolos religiosos, para a qual criou o rótulo de “cristofobia”. Outro parlamentar do DF, Izalci Lucas (PSDB), apresentou requerimento para que o MEC explique a implantação da “ideologia de gênero” nas escolas, segundo ele parte de um plano comunista, de inspiração gramsciana, para destruir a família. Enquanto isso, a temida palavra “gênero” foi vetada no Plano Municipal de Educação da cidade de São Paulo e a hierarquia católica pede que nele seja inserida a “definição cristã” de casamento. Contrário a tal ofensiva, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) reage dizendo que “o amor ao próximo é o maior ensinamento que Deus nos deu”. E Silas Malafaia aplaude, afirmando que o Estado pode ser, mas “o povo não é laico”.

Na narrativa que as lideranças políticas de discurso religioso constroem, qualquer tentativa de disputar sentidos – como questionando os papéis de gênero – é parte de um plano de dominação do mundo. São elas, no entanto, que estão deliberadamente produzindo um enquadramento que reforça sua posição. É notável a rapidez com que uma expressão bizarra como “ideologia de gênero” se firmou no vocabulário político brasileiro. Havia necessidade de rotular o adversário. A nova peça de marketing é a “cristofobia”, que dá nome à pretensa perseguição que os religiosos sofreriam, cada vez que se tenta preservar a laicidade do Estado. O nome trai, porém, o caráter exclusivista da proposta de Rosso: o alvo é proteger símbolos religiosos em geral ou só os cristãos? Ou o deputado pretende que a polícia saia prendendo e enquadrando como criminosos hediondos todos aqueles que chutam despachos, seguramente a forma de profanação mais frequente no Brasil, mas que desperta tão pouca revolta nos defensores da religião no parlamento?

O avanço do conservadorismo religioso na política brasileira não se explica por um aumento do fervor de nossas lideranças, mas por cálculo. O velho Marx dizia que a religião é o ópio do povo, se referindo ao papel das igrejas no controle social e na manutenção das hierarquias vigentes, proporcionando um consolo sobrenatural e desviando a atenção do conflitos terrenos. E, de fato, ao deslocar o eixo da discusão para as questões “morais” (que, no entanto, são em geral questões de direitos individuais), a direita se coloca em sintonia com uma parcela do eleitorado que, sobretudo a partir das políticas compensatórias do governo Lula, se movimentava na direção de seus adversários.

Nesse novo discurso religioso-político, as questões de gênero ganham primazia absoluta. Talvez isso tenha a ver com a perda de ascendência moral das religiões sobre seus fiéis, que mantêm uma vinculação muito frouxa com a doutrina, caso de muitos católicos, ou uma relação claramente instrumental com a fé, como ocorre em muitas denominações pentecostais. Os preconceitos tradicionais contra gays e lésbicas são um dos pontos em que há sintonia entre a hierarquia e uma grande parcela do rebanho. Diante da visibilidade das demandas pelos direitos de mulheres e de homossexuais, é fácil construir o fantasma de uma ameaça.

Enquanto mantêm o país livre da “ditadura gay”, os deputados da bancada religiosa contribuem ativamente para a implantação da agenda retrógrada que estamos vendo: terceirização, redução da maioridade penal, liberação das armas de fogo, fim da rotulagem dos transgênicos. Recuar em questões como o combate à homofobia ou a defesa da laicidade do Estado apenas incentiva a manutenção dessa estratégia. Pelo contrário, é necessário enfrentar o discurso fundamentalista e disputar, em sua própria base social, a naturalidade com que é aceita a discriminação e a violência contra grupos de pessoas.

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