Lagoas do Norte Para Quem?

Lagoas do Norte é um projeto da prefeitura de Teresina que vem massacrando corpos, identidades e singularidades dos moradores mais antigos da cidade, especificamente os negros e pobres. Pessoas cujas lembranças guardadas em suas memórias remontam as raízes culturais teresinenses: dona Dalvina, seu Raimundo, “comadre Divina”, seu Matias, seu Claus, dona Miúda, Quinha, Vera, dona Madalena, dona Cícera, dona Judithi, dona Marlene, dona Sidinha, seu Abdom, dona Maria, dona Rosa, Caçula,  Miúda… e tantos outros que deveriam ser valorizados como expressão de nossas singularidades, jeitos de ser, de falar, de estar no mundo, serão varridos como sujeira incômoda pelos instrumentos higienizadores do progresso.

Teresina cidade futuro! Mas, e o nosso passado? Ao que parece a prefeitura de nossa cidade não reconhece a importância de se conservar a memória de um povo. A manutenção de práticas culturais, a preservação dos espaços de memória. São gerações e gerações de famílias que habitam a zona norte, muitos dos quais descendem diretamente dos primeiros construtores de Teresina. Corpos cujas mãos moveram o barro que foi a base inicial das edificações da cidade.

Lagoas do Norte é um dos maiores planos já propostos pela prefeitura de Teresina e conta com total e irrestrito apoio do Banco Mundial. Incontáveis milhões de reais estão envolvidos neste projeto que mais uma vez objetiva a expulsão dos pobres e negros de suas casas deixando o espaço que hoje é considerado “nobre”, já que é localizado a 10 minutos dos shoppings e a cinco do centro, sendo assim ideal para gerar lucros da construção civil, dos grandes comerciantes e da especulação imobiliária, para os mais ricos.

A equipe da prefeitura vem desde 2000 criando discursos idílicos em torno deste projeto. Termos como infraestruturação urbana, saneamento, recuperação, cooperação, lazer, limpeza, revitalização, parece que não coadunam com a permanência dos moradores mais antigos de nossa cidade. Nos perguntamos: o que esses pobres e negros tem de tão monstruoso que devem ser expulsos de suas casas para que o progresso chegue? Porque a imagem dessas pessoas não pode estar conectada ao desenvolvimento e ao melhoramento de Teresina? Para revitalizar é preciso expulsar o corpo negro? Para reestruturar é preciso excluir o corpo pobre? Enquanto Teresina não se reconhecer construída pelas mãos dos negros e pobres, permanecerá virando de costas para sua verdadeira imagem. E nossa imagem é o que nos resta.

Historicamente o poder público municipal tem dado conta de destruir em parceria com grandes empresários prédios e casas antigas de Teresina, o que está a transformando em um colossal estacionamento. Carros são mais valorizados que pessoas. Agora, esta região das Lagoas do Norte onde Teresina nasceu, onde os rios Poti e Parnaíba se encontram, onde surgiu a lenda do “Cabeça de Cuia”, onde nasceu o Boi do Mestre Maleiro, onde estão os vazanteiros, os oleiros, os artesãos, os terreiros de umbanda, as resadeiras, bordadeiras, deverá também ser destruída. Tudo isso em nome de um progresso vazio e cruel.

A expulsão das pessoas negras e pobres dos seus lugares de origem fazem do projeto lagoas do norte um projeto oco, sem vida, sem verdade, um projeto que não escuta e não dialoga com a real cidade de Teresina.  Os moradores dizem: “queremos permanecer no local. Aqui estão nossas raízes. Agora, quando finalmente um projeto de infraestrutura está para ser implementado, por que nós sempre esquecidos, temos que sair? Lagoas do norte para quem? Nossa decisão é de ficar e que o projeto leve isso em consideração.”

Intensamente contaminada por estas questões, decidi expor minha arte, meu corpo, de mulher negra, de mulher pobre, como um manifesto errante, que perpassa arte, militância e ativismo. Me desafiei a dançar para questionar a violência e a exclusão desses corpos negros da zona norte. A performance que proponho para a cidade eu a chamo de “Banho de sangue”, tem acontecido no confronto entre arte e violência, em especial a violência contra a mulher. Um crime de feminicídio. No estado do Piauí, Mulheres são arrastadas nas ruas como animais, jogadas no matagal, rasgadas, esfaqueadas, desnudas, desrespeitadas, agredidas…um banho de sangue.

Neste contexto, dia 10 de Janeiro 2019,  parti para performar no prédio da prefeitura de Teresina, centro do poder. Guardas protegiam o prédio, transeuntes passavam condizentes com seus cotidianos, ambulantes filmavam, carros buzinavam, pessoas se aglomeravam para ver o Meu corpo de mulher negra exposto como um manifesto errante, perpassando arte, militância e ativismo. A voz dos moradores que protestavam ecoava em mim. Dancei uma dança ávida para desconstruir conceitos e ideias preconceituosas a despeito do corpo negro. Dancei o terror da expulsão dos moradores, dancei a história esquecida e soterrada de vidas que nunca estarão nos livros de história. Dancei por dona Dalvina, seu Raimundo, “comadre Divina”, seu Matias, seu Claus, dona Miúda, Quinha, Vera, dona Madalena, dona Cícera, dona Judithi, dona Marlene, dona Sidinha, seu Abdom, dona Maria, dona Rosa, Caçula,  Miúda… e todos os outros esquecidos de nossa Teresina.

As fotografias de Tássia Araujo, constituem uma outra forma de construir esse corpo negro, como uma trama de informações que se transformam e comunicam com o mundo. Informações que denunciam injustiças sociais. Ampliam realidades não vistas, desconstroem imagens cotidianas. Promovem desvios no olhar, no comportamento dos corpos no espaço da cidade. Bagunçam o pré-estabelecido, reconfiguram paisagens. Possibilitam viver, ser e amar nossa história.

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