Por Wilson Gomes, no facebook

Dizem que Lula disse que Haddad tem que ir às ruas, para ganhar a eleição. Ruas são legais e, afinal, não já combinamos que todo político popular tem que ir aonde o povo está? Na verdade, contudo, ruas são boas mesmo é para gerar tomadas para os programas eleitorais e para se conquistar “free media” nas coberturas dos jornais e telejornais. Além disso, não foi nas ruas que a campanha pró-Bolsonaro achou 49 milhões de eleitores.

Dizem que a esperança agora é uma campanha televisiva com mais tempo e com apenas dois adversários. O PT, afinal, sempre foi bom de propaganda na televisão, desde o longínquo 1989, quando parodiou com grande sucesso de público e crítica a arqui-inimiga Globo ao inventar a Rede Povo. Mas, não, não foi no sofá em frente à TV que os bolsominions encontraram 49 milhões de eleitores e ainda tomaram eleitores de Alckmin, que tinha 40 vezes mais tempo de tela do que o seu candidato. Nem certamente foi nas entrevistas e debates televisivos que o deputado simplesmente ignorou quando quis, que Bolsonaro foi buscar os votos de que precisava quase liquidar a fatura da corrida eleitoral no primeiro turno.

Dizem que a campanha do PT decidiu que vai ser preciso dar mais atenção às redes sociais digitais e aos blogs (que petistas digitais tem uma crença enternecedora em blogs), dando um “up” nos perfis públicos do candidato e, quem sabe, investindo em impulsionamento. Bolsonaristas e o próprio Bolsonaro mandaram muito bem no Twitter e no Facebook, inclusive trocando entrevistas em redes de televisão por “lives” no Facebook e por vídeos improvisados postados no Twitter. Até mesmo, forçando o centro da visibilidade pública nacional, o prime time do telejornalismo, a reproduzir vídeos mambembes publicados digitalmente pelo próprio candidato, em direto, provocador e inusitado desafio à televisão. Mas a campanha em redes sociais foi apenas a superfície da campanha digital, cujo centro foi constituído por um aplicativo de comunicação instantânea e não por uma “rede social”. Sim, desculpem os petistas, mas não foi exatamente em redes sociais digitais que a campanha pró-Bolsonaro capturou, motivou, mobilizou e transformou em ativistas os bolsominions que foram à cata dos 49 milhões de votos depositados na conta do deputado no primeiro turno da corrida presidencial.

“Redes sociais” são um negócio antigo, totalmente 2017. O termo do ano em 2018 é “mídias digitais”. Se quisermos ser mais específicos, a palavra é WhatsApp. A campanha digital pró-Bolsonaro é centrada no aplicativo, para onde e de onde se dirigem os fluxos de tráfego que vão e vêm das e para as redes sociais digitais, sites de fake news, YouTube, portais dos jornais e telejornais.

Há evidentes vantagens em se preferir WhatsApp a redes sociais digitais. A visibilidade nas redes sociais é gerenciada por algoritmos fora do controle dos seus usuários, o WhatsApp não tem algoritmos controlando a distribuição e o alcance dos conteúdos. Redes sociais são públicas e, portanto, as pessoas podem ser chamadas a responder pelo que publicam, enquanto o WhatsApp é privado e facilmente passa sob o radar da autoridade eleitoral. O que é publicado em redes sociais digitais chega às pessoas se elas ativamente se conectarem a essas redes e procurarem tais conteúdos, enquanto o material publicado no WhatsApp chega aos telefones pessoais até de forma passiva, inadvertidamente. É um conteúdo invasivo e onipresente que chega aos bolsos e às mentes das pessoas por meio dos hoje indispensáveis e altamente disseminados aparelhos celulares.

Grupos de WhatsApp de apoio a Bolsonaro (há dois meses frequento alguns deles) serviram basicamente para fins de veiculação de teorias conspiração, fake news de desmascaramentos de fantasiosos complôs, fakes news para disseminar mentiras sobre os adversários, declarações de “já ganhamos”, mobilizações para “vamos atacar fulano que não gosta de nós” e ampla oferta de memes e áudios para serem distribuídos, a partir dos grupos, para os formigueiros digitais. O WhatsApp é a superfície comunicacional, o ambiente digital, que conecta e articula dezenas de milhões de telefones celulares, portanto, de pessoas. Demora poucos segundos apenas para que um meme, um áudio, uma fake news inserida no sistema linfático dessa rede gigantesca de smarphones e militantes por meio de um grupo de WhatsApp de apoio a Bolsonaro passe para os grupos de família, de amigos, de colegas de trabalho ou faculdade, da turma do futebol ou do tênis e, enfim, chegue a todas as pessoas listadas nos contatos do meu telefone. Não há precedentes históricos para um sistema tão eficiente disseminação de conteúdo de campanhas.

A campanha no WhatsApp é muito peculiar: é de baixo para cima, funciona independentemente da coordenação de campanha (se há), apoia-se em uma infraestrutura enorme de grupos hiperativos, tem extrema capilaridade, um alcance inigualável e uma velocidade de difusão até então desconhecida. Por outro lado, não conhece limites morais: mente-se, falsifica-se, forja-se, inventa-se, faz-se o que se julgar apropriado para defender o próprio candidato ou para atacar adversários. Como as moderações são mínimas, e servem basicamente para banir infiltrados, podem imaginar como esses grupos são um vale-tudo incessante.

No sábado, véspera do primeiro turno, por exemplo, circulou amplamente que o TSE estava armando uma cilada para anular os votos dos bolsonaristas que fossem votar com a camisa do Mito e que Rui Costa havia proibido que os militares fossem votar na Bahia. Tudo postado em tom de urgência e conspiração. Quatro minutos depois que o áudio “denunciando” o recolhimento dos militares aos quarteis por obra do governador, o mesmo material já estava em todos os meus grupos pessoais de amigos que conta com algum bolsominion (e quem não os tem?). No domingo pela manhã, a mesma febril e paranoica atividade de “denúncias” da conspiração das urnas eletrônicas: que em 70% das urnas ou não havia o nº 7 ou não aparecia a foto do deputado ou não foi convalidado o voto nele. E que faltava pouco para uma intervenção militar. O resto da energia foi empregado para o acompanhamento de eventos, em tempo real, como a retumbante vitória do Mito na Ásia e na Oceania. E depois, à noite, para celebrar o fato de que Jean Wyllys não havia sido eleito, provavelmente o mais desejado prêmio da campanha, depois da vitória de Jair. Tudo isso, fora os feitos na Ásia, era falso, mas quem se importa?

Os grupos de WhatsApp enfrentaram a TV e ganharam, mas também não fizeram menor estrago nas ruas. A campanha digital baseada em dispositivos móveis passou por cima de mobilizações de protestos de rua sem grande esforço no seu primeiro teste, quando ressignificaram completamente o #elenão e ganhou do movimento como quis, no modo como o editaram, empacotaram e o distribuíram online. Inclusive o foram desconstruindo em tempo real, enquanto as manifestações ainda estavam acontecendo. Assim, um belíssimo movimento de rua foi desconfigurado e reeditado, para fins de mobilização da rede ultraconservadora, disparando (não falei causando), paradoxalmente, a corrida para o voto em Bolsonaro a que assistimos na última semana da campanha antes do primeiro turno.

Desde a eleição de Obama em 2008, a gente esperava que alguém de esquerda no Brasil fosse entender e dar valor à campanha digital “de baixo para cima”. Nunca a entenderam, nunca a valorizaram. Nem a esquerda nem a direita. Aí veio a extrema direita digital em 2018 e anulou os efeitos da campanha televisiva, derrotou o único grande movimento de rua acontecido nesse período, passou por cima de todas as barreiras que as empresas de plataforma quiseram impor à distribuição de campanha negativa e conteúdo falso e ainda ganhou de goleada das formas tradicionais de articulação política de base.

Os petistas foram muito ágeis em 1989, ao adotar rapidamente a gramática da televisão, que era o meio dominante. Por isso ganhou de Brizola, um homem de palanque e rádio, e disputou o segundo turno com Collor, um homem-TV. Mas nunca foram bons no mundo digital nem o entenderam. Chegaram no máximo à fase dos blogs, o instrumento preferido dos “bloqueiros sujos” – ou lulistas, segundo as más línguas. Nunca se deram bem em redes sociais. Um desastre. Dilma deixou o seu perfil no Twitter abandonado por, literalmente, 4 anos. É, portanto, claro que ainda não compreendem os paranauês de uma campanha baseada no WhatsApp. O ano que vem eles os entendem, não os apressem.

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