Por Fabíola Lemos, em seu facebook

Sou PROFESSORA há 23 anos. Nesse tempo, nunca fui poupada, em minha condição de mulher, de toda a carga de desconfiança e preconceito, por lecionar para turmas do pré vestibular, lugar culturalmente reservado aos homens.

Iniciei em escolas que passavam até 5 meses sem pagar o salário. Nelas, aprendi muito sobre paciência para agarrar as oportunidades e sobre a crueldade do mercado.

Em minha trajetória “meritocrática” , nunca houve um só teste que eu reprovasse. Bolsas de monitoria da Universidade, testes de seleção para professores, concursos públicos.Em TODOS eu passei.

Por ser bacharel, não tive espaço na educação pública, por isso, acabei me consolidado como professora apenas na rede privada de ensino – lugar aonde os valores humanos, na maioria dos casos, resumem-se à frase clichê no mural da recepção.

Nas escolas que lecionei, acumulei uma longa história de reconhecimento e afeto dos quais sou eternamente grata.

Escrevo sobre UMA VIDA que se confunde com a profissão, entre os dois únicos dons que estou certa que tenho: o de ensinar e sobreviver.

Jamais nutri a ilusão de que minha ascensão na vida profissional era independente da conjuntura do mercado.

Sempre tive consciência que minha estabilidade pousava sobre um perfil de professora que o ENEM exigia, para render às escolas o famoso outdoor de fim de ano.

Assim, desfrutava de ampla liberdade para orientar minhas aulas, compromissadas com a agenda dos direitos humanos e sob os critérios de cientificidade que respaldavam o ensino e levavam os alunos à aprovação.

É claro que incomoda. Afinal, sou professora de Sociologia no Brasil e não na Finlândia. Em nosso país é impossível falar sobre cidadania ( e principalmente exerce-la) sem “causar”.

Como tratar de teorias que estão na contramão do poder hegemônico sem provocar uma classe média que é instruída a reproduzir os valores do patrão?

Mas agora, “os tempos são outros” e, como é próprio dos períodos de interrupção democrática, Sociologia e Filosofia são as primeiras disciplinas a serem perseguidas. Nada que não possa piorar: dessa vez sob a configuração do fundamentalismo religioso.

Ontem fui demitida de uma escola que lecionava há 5 anos. Escola onde, até poucos dias atrás, minha presença no material de divulgação era fundamental pra atrair o alunado. Instituição para qual fiz mil sacrifícios para permanecer, na correria de uma violenta agenda que me exauria, a fim de corresponder os pedidos daqueles que tanto necessitavam de meu trabalho.

A educação mercantil é bem ligeira no que se trata de adequação. Sem qualquer constrangimento ou pudor, ja se rendeu aos youtubers e blogueiros, pedagogos da nova era.

Não são Escolas, são empresas, alunos são clientes e professores são apenas mercadorias.

Somente as escolas privadas de ponta, entenderão a importância de não abrir mão dessas disciplinas em todo seu potencial, assegurando aos seus professores a liberdade de ensino e de suas orientações políticas, fazendo valer os avanços da Constituição Cidadã.

Na decadência, sem precedentes de nossa cultura, oligopólios estão engolindo escolas tradicionais, livrarias estão fechando e o Instagram segue ditando as pautas e o currículo escolar.

Resta à sociedade a tarefa de avaliar se ainda há espaço para a ética e para o respeito à dignidade humana nesse mundo inodoro, incolor e vazio que o capital instalou.

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