O site The Intercept Brasil é muito mais que revelações das malfeitorias de Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Na edição de hoje ele traz importante texto sobre o Nordeste brasileiro. Pela escrita dos jornalistas Alexandre Andrade e Nayara Felizardo é explicado o preconceito regional que sofrem todos aqueles nascidos no Nordeste. Preconceito enraizado ao longo dos anos e destilados por muito, inclusive, pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Esse preconceito sai da forma verbal e atinge situações práticas da vida como a redução da concessão de empréstimos da Caixa Econômica Federal para estados nordestinos. Até julho, os estados da região receberam apenas 2,2% do total de novos empréstimos autorizados pelo banco, um percentual muito menor do que os 21,6% em 2018. Na realidade Bolsonaro quer punir os nordestinos que não votaram majoritariamente nele.

The Intercept Brasil lembra que o governo Bolsonaro não é adepto das pesquisas científicas e, com frequência, nega a história, mas ressalta que ambas mostram que faltou ao Nordeste politicas publicas diversas.

A matéria busca a história do Nordeste lá dos idos do século 19 e mostra como a economia de então, da região, foi perdendo espaço para o centro sul do país. Atividades econômicas fortes como a produção de açúcar e algodão caíram na decadência enquanto o café (de SP e Minas) tornava-se a principal cultura daquele Brasil agrícola. O semi-árido nordestino sofreu duplamente. Como a economia da região havia se especializado na produção de carne para atender as cidades litorâneas, essa atividade também entrou em declínio, incapaz de competir com o charque (carne salgada) produzido pelo Rio Grande do Sul. E sofreu com as secas, abordadas a seguir.

Lembra também que em 1872 a cidade de São Paulo tinha apenas 31 mil habitantes sendo menor que Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Fortaleza e Cuibá e que em 3 décadas, por conta da imigração europeia, esses números mudaram completamente. Italianos, portugueses, espanhóis, japoneses e, alemães desembarcaram no país (sul/sudeste) com um grau de instrução médio superior ao da população local.

Racismo Cientifico

Para explicar o preconceito de Jair Bolsonaro e muitos outros brasileiros (como aquele tiozão que encontramos nos churrascos de família aos domingos) The Intercept Brasil lembrou que desde do final do século 19 estava na moda um conjunto de teorias que pregavam a existência de um ranking entre as “raças”, com os brancos europeus ocupando o topo da pirâmide, enquanto as populações pretas e mestiças ocupavam a base. Brancos europeus são vistos pela sociedade racista da época como mais inteligentes e mais trabalhadores. Os não brancos (pretos, pardos, indígenas), por sua vez, como inferiores, preguiçosos, malandros. Esses preconceitos facilitavam a ascensão social dos europeus e de seus descendentes, enquanto criavam mais obstáculos para a superação da pobreza das populações não-brancas.

A matéria não deixa de citar as consequências das secas nordestinas. The Intercept Brasil ressalta que entre 1877 e 1879, ocorre a chamada “grande seca”, que atinge com violência particular o estado do Ceará, provocando a morte de 500 mil sertanejos. Muitos foram os que, ao tentarem fugir da fome, se retiravam para as cidades litorâneas, bem como para a região norte do país, que começava a experimentar o boom da borracha.

Entre  1950 até 1980 há um novo ciclo de crescimento econômico do Sudeste, e mais legiões de nordestinos saem em busca de uma vida melhor no Rio e em São Paulo. Esses nordestinos pobres, mestiços, com baixa escolaridade encontravam sustento em profissões de baixa qualificação e reduzido prestígio social. As mulheres, via de regra, se tornavam empregadas domésticas, lavadeiras. Os homens, pedreiros, trabalhadores braçais. Sem salários que lhes garantissem dignidade, esses nordestinos iam morar nas favelas que se agigantavam pelas grandes cidades brasileiras. Com pouca educação formal, falando um português com um sotaque característico, passam a ser um alvo fácil do preconceito, do ódio e também do humor – um modo socialmente palatável de destilar xenofobia e ódio.

O presidente Jair Bolsonaro, da posição privilegiada do mais alto cargo da República, está constantemente reafirmando e chancelando a xenofobia, mais ou menos evidente, que existe em parte não desprezível de seu eleitorado. Ele consolida um preconceito baseado nessa construção histórica, de origem econômica, social e racial, que são marca do “racismo científico” e que ainda hoje se mantém no inconsciente de muita gente.

Veja a íntegra da matéria do The Intercept Brasil:

https://theintercept.com/2019/08/12/bolsonaro-despreza-nordeste-nordestinos-economia/

 

 

 

 

 

 

 

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