Por Sâmia Menezes, jornalista

Em passagem pelo Brasil, o sociólogo espanhol Manuel Castells alertou para a existência de uma nova ditadura no país e disse que vivemos a era da “informação desinformada”.

“Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação e ela, em geral, mas particularmente no Brasil, está em muito mau estado. E vai ficar pior, porque o próprio presidente acha que a educação não serve e vai cortar os investimentos na área. Por um lado, temos mundos de redes de informação, de meios que invadem o conjunto de nosso pensamento coletivo, e ao mesmo tempo pouca capacidade de educação das pessoas para entender, processar, decidir e deliberar. Isso é o que chamo de uma era da informação desinformada”, declarou.

É o que ele mais à frente define como uma “ditadura Orwelliana”, de ocupar as mentes. “Isso se faz acusando de corrupção qualquer tipo de oposição. Como a corrupção está em toda parte, então persegue-se apenas a corrupção de políticos e personalidades que se oponham ao regime. Esse tipo de ditadura só pode funcionar com um povo cada vez menos educado e mais submetido à manipulação ideológica”.

Para o sociólogo, a construção coletiva do que ocorre na sociedade está totalmente dominada por movimentos totalitários, que querem ir pouco a pouco anulando a democracia. Por isso, é preciso atacar a educação, atacar os professores, as universidades, as humanidades e as ciências sociais, que são áreas que permitem pensar. “Tudo o que significa pensar é perigoso. Por isso, digo que é uma ditadura, ainda que de novo tipo. É uma ditadura da era da informação”, declarou em entrevista ao portal O Globo.

Considerado um dos principais teóricos da comunicação, Manuel Castells sugere que os cidadãos que “querem estabelecer a verdade” precisam retomar o protagonismo nas redes. Durante seminário da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, ele defendeu a educação virtual à distância, a qualificação dos professores e ainda falou de Paulo Freire. “Por que se ataca Paulo Freire? Porque no mundo, e não só no Brasil, ele é um símbolo. Eu conheci Paulo Freire na Universidade Stanford e lá ele era adorado, porque seus princípios são adaptados ao que é a nova sociedade: criar pessoas livres e autônomas, capazes de promover sua própria aprendizagem, guiados por seus professores. Isso é muito perigoso para aqueles que querem manipular. Paulo Freire é liberdade, e a liberdade é agora o maior obstáculo que existe para que se siga desenvolvendo essa ditadura sutil que estão tentando impor ao Brasil.”

Castells aborda ainda o rompimento da confiança entre governantes e governados, o que acabou contribuindo para o surgimento de políticos demagogos, como Bolsonaro e Trump (ele cita). Segundo ele, a esquerda e a democracia liberal estão tentando se reestruturar em todo o mundo. “Agora, a esquerda não é simplesmente uma ideologia, alguns partidos. O que chamamos de esquerda é a capacidade das pessoas de se rebelarem contra sua exploração, sua manipulação, e sua opressão. Então, se falamos da esquerda existente hoje, ela está em colapso total, mas se falamos da possibilidade de uma rebelião, de um controle social contra o que está acontecendo, posso garantir, pela experiência histórica do Brasil que haverá mais que uma esquerda, haverá grandes movimentos sociais contra a ditadura, como houve para acabar com a ditadura anterior”, declarou.

Comentários no Facebook

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here